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Como sincronizar cinco relógios (Jornalismo Científico)

Jornalismo e ciência têm tempos diferentes entre si, o que sempre foi problema para especialistas na área

O AQUECIMENTO global é uma das mais sérias questões da agenda mundial. Um dos capítulos do livro recomendado ao final resume bem as razões; algumas das consequências já observáveis estão no filme indicado.
O jornalismo tem obrigação de cobrir com rigor, isenção, destaque e prioridade o debate em torno do assunto. A Folha a vem cumprindo com louvor, às vésperas da cúpula de Copenhague no início de dezembro.
Esta semana, no entanto, parece ter dado pequena derrapada ao tentar extrair conclusões definitivas rapidamente demais de comunicado conjunto dos países banhados pelo Pacífico (EUA e China entre eles), ao final do encontro da APEC no domingo, no qual declaravam sua intenção de não definir no mês que vem metas fixas e obrigatórias de corte de emissões de gases causadores do efeito estufa.
A obsessão em apontar “fiascos” alheios se manifestou novamente na segunda-feira quando a palavra foi usada na primeira página para definir desde já o resultado de Copenhague. Pode ser que a reunião acabe mesmo em fiasco. Mas é cedo para decretar o resultado.
Tanto que, na quarta, sem o mesmo alarde e nenhum radicalismo (nem chamada de capa), o jornal noticiou que os presidentes Barack Obama e Hu Jintao anunciaram aceitar estipular metas em Copenhague.
A aparente contradição pode muito bem ser apenas resultado do exercício rotineiro de táticas de diplomacia, que podem incluir declarações públicas com conteúdo diverso (às vezes oposto) ao das posições de fato dos governos, a fim de sentir a reação das demais partes e da opinião pública.
Jornalismo e ciência têm tempos diferentes entre si e este sempre foi o principal problema para quem exerce essa especialização da atividade. O jornalismo anseia por conclusões finais rápidas; a ciência requer prazos longos para testar e validar hipóteses.
Esses tempos raramente sincrônicos têm que se ajustar agora também aos da diplomacia, da política e da economia, que tampouco costumam ser simultâneos entre si. Conectar os cinco relógios é tarefa dificílima.
Como se já não o fosse explicar no espaço reduzido do jornal a enorme complexidade e muitas controvérsias em torno do aquecimento global. Por exemplo, o fato de que o aumento gradativo das temperaturas no planeta não deve ser medido pela sua evolução anual, mas sim de pelo menos décadas, e talvez de meio século ou séculos.
A Folha vem usando pouco os recursos da internet, que podem levar leitores a recursos didáticos muito mais adequados à compreensão desses problemas do que a página impressa, onde deveriam constar remissões para sites confiáveis com elementos audiovisuais e de multimídia eficazes.
Se isso não for feito bem e depressa, corre-se o risco de a opinião pública se desinteressar do assunto e deixar de colocar pressão sobre os governantes, como já vem ocorrendo nos EUA. O resultado pode ser trágico.

PARA LER
“O Mito do Progresso”, de Gilberto Dupas, Editora Unesp, 2006 (a partir de R$ 29,23)

PARA VER
“Aventuras no Novo Ártico”, de Adam Ravetch, Sarah Robertson, 2007 (no canal de TV paga Telecine HD, dia 19/12, às 10h40; à venda por R$ 19,90)

Carlos Eduardo Lins da Silva, Ombudsman – Folha de São Paulo
22 de Novembro 2009

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Quando é preciso chocar sem morbidez

Faz tempo que quero destacar a coluna do ombudsman da Folha de São Paulo, atualmente sob o comando de Carlos Eduardo Lins da Silva, publicada aos domingos. 

Para os estudantes de jornalismo, entrar em contato com essa análise do próprio veículo é extremamente enriquecedor, e aliado aos exemplos e dicas de livros e filmes, só temos a ganhar com tanta informação. Aproveitem!

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Fotografias chocantes podem ajudar a manter vivos na memória coletiva horrores inomináveis e, com isso, dificultar a ocorrência de similares


Desde o caso da morte de Isabella Nardoni, em abril, o ombudsman não recebia tantas mensagens sobre um mesmo assunto numa semana, como nesta, de Ano-Novo, sobre o conflito entre Israel e palestinos.
Como é natural, com grande carga de emoção em todas e clara divisão entre as que veem no jornal proteção para um ou outro lado.
Dois leitores se queixaram de fotos de crianças mortas. Zuleika Haddad perguntou: “Por que a Folha precisa estampar foto de uma menina de 4 anos em seu funeral?“. Geraldo Pietragalla Filho argumentou que as fotos “em nada contribuem para a compreensão dessa guerra insana; são manifestações mórbidas”.

A morbidez deve ser evitada a todo custo, e o jornal precisa tomar muito cuidado com isso. Não acho que tenha esbarrado nela por enquanto.
Imagens fotográficas chocantes podem servir a propósitos humanitários e ajudar a manter vivos na memória coletiva horrores inomináveis e, com isso, dificultar a ocorrência de similares.

Como as dos prisioneiros dos campos de concentração de Auschwitz e Dachau, das deformidades provocadas em crianças pela poluição na baía de Minamata, das torturas impostas a prisioneiros iraquianos por soldados dos EUA em Abu Ghraib, dos efeitos de bombas de napalm sobre civis sul-vietnamitas, como a garota Kim Phuc, na foto acima, feita por Nick Ut, em 1972.

Não é agradável ver essas cenas. Mas às vezes é indispensável.

Quanto à cobertura em palavras do que vem ocorrendo em Gaza, a Folha começou muito mal. No sábado, enquanto os primeiros ataques aéreos ocorriam e prenunciavam o que viria, o jornal circulava com a avaliação de que a expectativa era a de que as tensões arrefecessem depois de Israel ter permitido a chegada de medicamentos e alimentos a Gaza.

Foi o contrário que ocorreu. Nunca é bom para um jornal antecipar algo e ocorrer o oposto. Mas faz parte dos riscos desta atividade.

O importante é que a Folha entendeu logo a importância dos fatos e melhorou muito ao longo da semana no seu acompanhamento. Na segunda, já estava na fronteira de Israel com Gaza seu enviado especial, que tem oferecido ao leitor o que só um jornalista do próprio veículo consegue fazer: mostrar os acontecimentos da perspectiva de real interesse do público específico.

A preocupação com o equilíbrio tem sido ostensiva. Sempre saem artigos em defesa dos dois lados em espaço comparável, descrevem-se as condições de vida dos habitantes das duas áreas (apesar da proibição à entrada de jornalistas estrangeiros em Gaza), o texto de Adrian Hamilton, do “Independent”, na sexta, sobre as causas do conflito, é exemplarmente isento.

Ainda falta muito a fazer, inclusive analisar com mais profundidade as posições do governo brasileiro e suas pretensões. Não será possível agradar a todos os leitores. Mas o caminho que o jornal vem seguindo é o certo.

“Enviado Especial”, de Clóvis Rossi, editora Senac, 1999 (a partir de R$ 43,45) Seleção de reportagens feitas pelo colunista da Folha no exterior, com um capítulo sobre Israel e palestinos de 1991 e 1996

“Jornalismo e Desinformação”, de Leão Serva, editora Senac, 2001 (a partir de R$ 27,65) Reflexões sobre o papel da imprensa em situações de conflito internacional a partir da experiência do autor como correspondente de guerra na ex-Iugoslávia

Para ver

“Bem-vindo a Sarajevo”, de Michael Winterbottom, com Woody Harrelson, 1997 (a partir de US$ 13,49 em sites de venda americanos) Ambientado em 1992, filme mostra grupo de jornalistas que cobre a guerra na Bósnia e o envolvimento emocional de alguns deles com um dos lados

“Procedimento Operacional Padrão”, de Erroll Morris, 2008, em exibição pelo Brasil A partir de entrevistas com os torturadores, a reconstrução dos horrores praticados por soldados americanos na prisão de Abu Ghraib, no Iraque, que ficaram conhecidos a partir de divulgação de fotos pela imprensa