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A verdade é complicada (por Adriano Moralis)

Os sites americanos são quase unânimes, quem venceu as Olimpíadas de Pequim foram os americanos! Ignorando o método de contagem oficial do COI, onde as medalhas de ouro indicam quem venceu, os Estados Unidos mostram que realmente são uma potência, prepotência!

E para os críticos do imperialismo yankee, antes de falarem mal do vizinho de cima, olhem para a própria sala de jantar, afinal, o COB (Comitê Olimpíco Brasileiro) está “manipulando” a informação da mesma forma na tentativa de mostrar que sim, nós brasileiros nos superamos em Pequim, assim como fizemos o Pan 2007 perfeito e que temos absoluta capacidade de sediar uma Copa do Mundo e quem sabe as Olimpíadas de 2016!  Somos todos Alices no país das maravilhas!

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Acabou!

Editorial da Folha de São Paulo, 25 de agosto de 2008

Apesar de alguns feitos notáveis -como as medalhas de ouro conquistadas por César Cielo, na natação, Maurren Maggi, no salto, e a equipe feminina de vôlei-, um sentimento de frustração parece inevitável diante do desempenho dos atletas brasileiros na Olimpíada de Pequim.

No caso da seleção masculina de futebol, um longo tratado, repleto de antecedentes históricos, de análises de psicologia motivacional e de bastidores administrativos, ainda está por ser escrito pela crítica especializada. No contexto deste comentário, basta citar o conselho de Virgílio a Dante Alighieri, no passo da “Divina Comédia” em que ambos contemplam o destino das almas incaracterísticas, carentes de ímpeto próprio: “Non ragionam di lor, ma guarda e passa”.

Passemos, portanto, ao largo da questão. Vale mais refletir sobre os exemplos das estrelas em outras modalidades esportivas que, por alguma razão, tiveram desempenho inferior ao esperado. Sejam quais forem as precariedades com que todo atleta brasileiro é forçado a conviver, o fato é que acidentes, imprevistos e frustrações são normais em qualquer competição esportiva.

O que parece fugir, talvez, aos padrões rotineiros em outros países é a carga de emocionalidade e expectativa que se deposita, muitas vezes, sobre a figura individual deste ou daquele jovem atleta, que por alguns dias experimenta sobre os ombros o peso de uma exposição midiática e de um furor patriótico sem freios.

Pode-se dizer, claro, que em muitos outros países, a começar pela própria China, uma veemente necessidade de auto-afirmação nacional faz de cada disputa por medalha olímpica uma empreitada cívica.
Mais do que os desafios inerentes a cada modalidade esportiva, é como se estivessem em jogo vários séculos de história, cuja carga de insucessos devesse ser superada num salto fenomenal, numa pirueta espetacular, num giro sobre-humano.

Ocorre que a China -como, no passado, os países do Leste Europeu- investiu pesadamente no treinamento de seus atletas. Aqui, é como se os sonhos de um país inteiro se encarnassem num número relativamente pequeno de esportistas, cujos eventuais malogros repercutem desproporcionalmente, sem dúvida, sobre os ânimos gerais.

Ganhamos menos medalhas do que poderíamos; paciência. Investir mais em esporte é fundamental para o bem-estar, a saúde e o lazer da população; tal objetivo não tem necessariamente de vir atrelado ao de subir novos degraus no “ranking” olímpico.

A simbologia dos recordes e do ouro é sem dúvida significativa, mas não deixa de ser simbologia apenas. Sediar a Olimpíada -outra questão em que os brios nacionais se acendem- tampouco fará, por si só, do Brasil um país diferente do que é.

Afinal, seu engrandecimento, no esporte como em qualquer outra área, não se mede em recordes, prêmios e medalhas, mas sim na conquista de uma vida melhor para a população.