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Jornalista: só com diploma!

A importância da formação universitária específica nas diferentes profissões é sintoma de uma sociedade desenvolvida, com uma educação de qualidade e, fundamentalmente, democrática. É certo que um diploma não é sinônimo de qualidade e tampouco de profissionais éticos e competentes. Contudo, a formação universitária, principalmente nas áreas profissionais estratégicas para o desenvolvimento social, é condição muito importante, pode-se dizer, imprescindível, para a consolidação democrática e o desenvolvimento social. Neste mundo globalizado e complexo, o gerenciamento da informação se tornou importante demais para ficar sob controle das empresas de comunicação ou da classe política.

A jornalista do O Globo, Miriam Leitão, em recente vídeo sobre a nova página web do jornal foi muito clara ao afirmar que os jornalistas são “profissionais da informação”. Esta afirmação pode se apresentar muito antiga e até mesmo um jargão largamente usado. No entanto, é preciso refletir sobre o significado de cada palavra, ou seja, “profissionais” se entende aquelas pessoas que tem competência, qualificação para atuar em determinada atividade, não se discute a qualificação de um profissional da saúde, da construção, do trânsito; e “informação” palavra tão significativa, de compreensão ampla e entendimento profundo. O jornalista como profissional da informação tem que estar qualificado para isso. Precisa compreender as ciências, a política, a sociologia, a história, a geografia. Não basta procurar informações em páginas web de notícias ou tampouco levantar alguns dados oferecidos, via de regra por meio de boletins (relises), pelas autoridades públicas.

Nesse mesmo vídeo, em que aparece o depoimento de Miriam Leitão, o editor executivo de O Globo, Luis Antonio Novais, é maduro, perspicaz e sensato em afirmar que a “notícia precisa ter muito mais reflexão”. Ou seja, a produção da notícia não pode ser realizada por qualquer pessoa, por profissionais não qualificados. E a qualificação acontece, como para qualquer profissional estratégico para a sociedade, por meio do curso universitário específico, neste caso, de jornalismo.

De outro lado, o senador pelo estado de Minas Gerais, Clesio Andrade, em recente artigo publicado na página web na Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), destacou que é imperativo para uma sociedade democrática a liberdade de imprensa. A liberdade de imprensa é um elemento estratégico para que uma sociedade cresça, se desenvolva e para que os mecanismos políticos e, portanto, democráticos possam se consolidar e serem garantidos ao longo dos tempos. Andrade afirma que a liberdade de imprensa é “um dos pilares básicos de qualquer regime democrático”. E que, portanto, “nada mais coerente que se exija formação adequada dos jornalistas para que exerçam esse poder e que a imprensa livre, ética e responsável assegure a democracia”.

A importância da formação universitária do jornalista também foi objeto de debate no último Congresso Internacional de Ciberjornalismo de Bilbao na Espanha. Com o advento das redes sociais, há um senso comum de que qualquer pessoa pode ser um jornalista. O fato de que muitos podem disseminar, distribuir informações, seja pelo Twitter, seja pelo Facebook ou outro mecanismo na internet qualificado como rede social, não significa que esta pessoa seja um jornalista. Uma coisa é a distribuição da informação, coletar dados e repassar aos outros; outra coisa é a produção da informação, ou seja, editar e difundir informações para a sociedade. É certo que hoje se vive sufocado por uma quantidade imensurável de informações, mas nem todas são verdadeiras ou confiáveis. As pessoas não tem tempo para ficar na internet e absorver toda a quantidade de informação disponível. Por isso, as pessoas assistem ao telejornal todas as noites, ouvem o radiojornal todas as manhãs e ainda, quando necessitam de mais informações, acessam as dezenas de ciberjornais a cada momento. É preciso profissionais da informação que possam configurar melhor aquilo que se quer saber, aquelas informações que interessam às pessoas. E mais ainda, quantas vezes o leitor, receptor, ficou satisfeito em termos de informação com um comentário de um jornalista especializado em economia ou política?

Com a infinidade de informações que circulam no mundo na era da internet é fundamental o trabalho de um profissional que possa auxiliar, facilitar, administrar as informações que as pessoas necessitam diariamente. E somente um jornalista qualificado num curso universitário de jornalismo tem habilidade para realizar esse trabalho.

*Gerson Luiz Martins – Jornalista, pesquisador do Mestrado em Comunicação da UFMS e membro da Comissão Nacional de Ética dos Jornalistas (www.gersonmartins.jor.br)

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Dia do Jornalista será “novo ponto de partida” do movimento em defesa do diploma

Ampliar a mobilização pela aprovação das Propostas de Emenda Constitucional (PECs) que restabelecem a exigência do diploma como requisito para o exercício da profissão é a ordem do dia das entidades e apoiadores da campanha em defesa do diploma após os contatos políticos que a Caravana dos Jornalistas realizou em Brasília de 23 a 25 de março. Nas audiências com os presidentes do Senado e da Câmara, e na reunião com parlamentares das duas Casas, ficou fortalecida a perspectiva de votação das propostas sobre o tema no Congresso Nacional em abril.

Em audiência com dirigentes da FENAJ, de Sindicatos de Jornalistas e com senadores no dia 23 de março, o presidente do Senado, José Sarney, manifestou disposição de incluir a PEC 33/09 na pauta do plenário após a votação de medidas provisórias que obstruem a apreciação de outras matérias. E sugeriu aos representantes da campanha em defesa do diploma que dialoguem com os líderes partidários com vistas a encaminhar a tramitação da matéria. Já aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado, a PEC 33/09, de autoria do senador Antônio Carlos Valadares (PSB/SE), tramita sob a forma de substitutivo que precisa da aprovação do plenário da Casa em dois turnos de votação.

No dia seguinte, representantes das entidades sindicais dos jornalistas e parlamentares foram recebidos pelo presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia, que adiantou seu objetivo de realizar, possivelmente em abril, um processo de votação de PECs que não acarretem despesas públicas e que sejam passíveis de obter acordo de lideranças. Maia também estimulou os jornalistas a prosseguirem nas articulações com lideranças partidárias para a inclusão da PEC 386/09 na pauta do plenário da Câmara. Os deputados Paulo Pimenta (PT/RS), autor da PEC, José Guimarães (PT/CE) e Chico Lopes (PCdoB/CE) também participaram da audiência.

A comitiva de dirigentes também foi recebida pelo líder do PT no Senado Federal, Humberto Costa (PE), e pelo líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL), juntamente com o senador Eunício Oliveira (PMDB/CE), ex-ministro das Comunicações. “Todos declararam apoio integral às PECs do diploma e se comprometeram a trabalhar os votos de suas bancadas”, afirma a tesoureira da FENAJ, Déborah Lima.

Deputados e senadores comprometidos com este objetivo colhem assinaturas para a reinstalação da Frente Parlamentar em Defesa do Diploma. A idéia é lançá-la em ato a ser realizado em Brasília no dia 6 de abril, em homenagem ao Dia do Jornalista.

“Com a agenda que nossa caravana realizou, a retomada da tramitação das propostas ficou fortalecida”, considera o presidente da FENAJ, Celso Schröder, avaliando as audiências com os presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados como “extremamente positivas”. Ele destaca, porém, que para assegurar a aprovação das PECs 386/09 e 33/09 é preciso intensificar as mobilizações. “Precisamos colocar o bloco na rua desde já”, defende. “E o Dia do Jornalista, 7 de abril, é nosso novo ponto de partida para ecoar na sociedade a defesa do diploma como condição necessária para qualificar o exercício do Jornalismo”, completa.

A 1ª vice-presidente da FENAJ, Maria José Braga, reforça tal entendimento. “No dia 26 de março, com a participação de dirigentes de 14 Sindicatos de Jornalistas, o Conselho de Representantes da FENAJ reafirmou a prioridade de desenvolver ações pela aprovação das PECs”, registra, informando que além de ampliar as mobilizações, ficou definida a orientação para que os Sindicatos de Jornalistas intensifiquem nos seus respectivos estados e regiões o contato para convencimento de deputados federais e senadores. (FENAJ)


PEC do diploma consta na pauta de votação da CCJ do Senado

A Proposta de Emenda à Constituição 33/2009, que restabelece a obrigatoriedade do diploma de Jornalismo para o exercício da profissão, foi inserida na pauta da Comissão de Constituição e Justiça do Senado desta quarta-feira (25/11). De acordo com o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), que preside a comissão, a expectativa é que o texto seja votado, já que todos os recursos foram esgotados.

Essa é a mesma avaliação do autor da proposta, senador Antonio Carlos Valadares (PSB-SE). Ele informa que participará de uma solenidade marcada para o mesmo horário da reunião da comissão, mas que, caso seja necessário, deixará o evento para pressionar a votação.

“Eu quero que ela seja votada. Quanto mais rápido, melhor”, afirma.

Entretanto, existe a possibilidade de que a discussão de outro projeto ocupe o tempo da reunião e a votação seja adiada. Na Câmara dos Deputados, onde uma proposta semelhante foi aprovada, a votação só ocorreu após um pedido de inversão de pauta. (Comunique-se)


Faculdades mudam para abranger novas mídias e se adaptar ao mercado

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JAMES CIMINO (Folha de São Paulo, 14/07/2009)
DA REDAÇÃO

“Agora que não precisa mais de diploma, as pessoas começaram a pensar que jornalismo não é mais profissão, é bico…”, diz o aluno do 4º ano do curso de jornalismo do Mackenzie Diego Estrella, 24.
O fim da exigência do diploma despertou um sentimento de frustração em parte dos alunos. Mas a mudança acontece justamente no momento em que alguns dos principais cursos se reciclam, procurando familiarizar o estudante com as novas mídias e com a realidade do mercado de trabalho.

Pelo menos três cursos de São Paulo reformularam suas grades curriculares: PUC, Mackenzie e Cásper Líbero.

Apesar de as mudanças ocorrerem em um momento-chave para a profissão, coordenadores e professores afirmam que elas nada têm a ver com o fim da exigência do diploma.

A PUC-SP pretende criar uma agência de notícias on-line até o final de 2010. A Cásper Líbero tornará obrigatório, já no primeiro ano, o uso de blogs e até do Twitter. Já o Mackenzie reformulou o currículo todo. Criou disciplinas, desmembrou outras, mudou nomenclaturas e reorganizou a carga horária.

“Não nos preocupamos muito com essa discussão de que a internet vai acabar com os jornais. Preparamos nosso aluno para trabalhar com a base da informação, que é texto, imagem e som, adaptados a todas as plataformas [TV, rádio, impresso e internet]”, diz Marcelo José Abreu Lopes, que coordenou a mudança no Mackenzie.

As faculdades ainda não sabem que impacto o fim da exigência do diploma terá na procura pelo curso.

O coordenador de jornalismo da ECA-USP, José Coelho Sobrinho, lembra que o exercício da publicidade, por exemplo, não exige diploma. Mas mesmo assim o curso está entre os mais concorridos na USP.
Segundo ele, uma eventual mudança no currículo pode acontecer apenas a partir de maio de 2010, mas não por causa do fim da exigência. “Jornalismo não é só técnica.”

O coordenador do curso da PUC-SP, Marcos Crippa, também minimiza a exigência do diploma, embora diga que só saberá os efeitos da decisão do STF no próximo vestibular.

“Se fizéssemos alguma mudança só por causa da queda do diploma, seria admitir que estávamos oferecendo um curso inadequado. O que pretendemos discutir é o que isso implica para a sociedade e como formar um jornalista crítico e transformador.”

A coordenadora do curso de jornalismo da FMU, Marcia Furtado Avanza, conta que alguns alunos perguntaram se poderão fazer pós-graduação, agora que “o diploma não vale mais”. “Acho importante esclarecer aos estudantes que o diploma continua “valendo”, só não é mais exigência para o exercício da profissão.”

Na Cásper, o impacto da exigência ou não do diploma é “indiferente”, diz o coordenador Carlos Costa.

“Nossa escola de jornalismo foi criada em 1947, quando não havia exigência do diploma.”

Marina Coratto, 22, aluna de jornalismo do Mackenzie, concorda. “Acho que vale a pena [fazer a faculdade de jornalismo], porque, ao contrário do que possa parecer após a queda do diploma, o que aprendemos aqui não é descartável.”


Carta aos jornalistas sem-diploma

Carta aos jornalistas sem-diploma

Queridos novos colegas,

Sejam bem-vindos. Vocês podem estar se sentindo um pouco rejeitados, mas nem todos os jornalistas estão aborrecidos com a notícia de que teremos novos colegas de trabalho agora. As reações mais violentas, acreditem, escondem amores obtusos, paixões desmesuradas e, quem sabe, até uma ponta de inveja. Estou particularmente feliz com a chegada de vocês ao nosso mercado profissional. Já era hora de nos encontrarmos com novas pessoas, novas ideias e novas abordagens em nosso dia-a-dia. Tanto barulho, não se iludam, não significa nada relevante. É apenas barulho e passa. A vida de jornalista, acreditem, não tem o glamour dos filmes e nem nós, o charme de um Clark Kent. Aliás, nem super-homens somos e com tanto trabalho em frente – não falta notícia no mundo, vocês verão – já era tempo de recebermos uma ajuda nesta difícil missão de informar nossos públicos sobre o que se passa além do portão de seu jardim.

Esta carta de boas vindas é sincera e espero que seja útil agora e no futuro. Quando chegarem às redações e assessorias de imprensa, certamente alguém tratará de menosprezá-los, porque, dirão, vocês não têm diploma. Isso não os faz menos jornalistas, porque nada relevante pode ser mudado apenas com um pedaço de papel. Vocês podem lhes responder, ou não. A melhor maneira de oferecer uma resposta a eles é praticando algo que muitos de nós não conseguimos: competência, ética, frescor e novas ideias. A profissão de jornalista é muito chata. Engana-se quem pensa serem as redações ambientes de reflexão, de engajamento e de sinceros desejos de mudança. São lugares cheios da poeira simbólica da imobilidade e do conformismo. Será uma boa oportunidade para vocês mostrarem a nós, jornalistas com diploma, que estivemos absolutamente equivocados nesse tempo todo e que há outras e melhores maneiras de exercer a nossa profissão.

Desconfiem sempre de tudo. Desconfiem se alguém lhes disser que a verdade é uma só. A verdade, caros colegas, são muitas. Há a verdade da vítima e a do assassino, há a verdade do político e do eleitor, há a verdade do patrão e do empregado. Vocês não têm que escolher uma delas, apenas dar espaço a todas. Se alguém disser que vai lhes ensinar a exercer a profissão – afinal, vocês são focas em nosso ofício – recusem. Recusem com elegância e digam ao seu interlocutor que é ele que pode aprender com vocês.

Chegará a hora que perguntarão se vocês podem fazer serão. Digam não. Se podem cobrir o final de semana do aniversário de sua filha ou de sua mãe, digam não. Se vocês podem retornar das férias porque o Papa morreu. Digam não. Até hoje, dissemos sim a tudo isso porque somos idiotas. Vocês, não. Vocês pertencem a um mundo real em que o Papa é menos importante que uma garrafa de cerveja gelada em Fortaleza ou que a esplêndida vista panorâmica de Londres que se tem a partir do Greenwich Park aos domingos. Ensinem para nós e para nossos patrões que a cobertura do jogo de futebol do São Paulo é menos importante que o aniversário de dois anos de sua filha, a não ser que você seja são-paulino e sua filha também.

Confesso, a coisa mais importante que me aconteceu durante os quatro anos de faculdade não foram as aulas de jornalismo que tive. Foram as pessoas que eu conheci e o que elas puderam me ensinar, fossem ou não professores. Aproveitei muito as aulas porque prestava atenção aos meus mestres e meus colegas. Eu sou professor de Jornalismo em uma faculdade e vejo, com freqüência, muitos jovens estudantes saírem do curso superior pior do que entraram. Quando chegavam à faculdade, diziam que desejavam ser jornalistas porque a profissão os encantava, porque gostavam de escrever e aspiravam por um mundo melhor. Quando saíam, falam apenas em salário, em fama e em emprego. Quatro anos de faculdade podem transformar as pessoas. Em muitos casos, para pior.

Com ou sem faculdade, algo é muito importante: aprender. Aprendam com suas fontes, aprendam na rua, aprendam com seus vizinhos, aprendam com os grandes mestres – Joel Silveira, Gay Talese, João do Rio, Nelson Rodrigues, Cartier-Bresson e tantos outros. O “Fama e anonimato” tem mais lições que 400 anos de faculdade. Quando vocês tiverem dúvidas, ouvirão duas vozes. Preste atenção àquela que fala mais baixo. Pode ser um mestre falando com vocês.

Há três coisas que não podem ter, nunca: pressa, opinião e preferências. Tirem essas palavras de seu dicionário, elas não importam. Não se sintam ameaçados se alguém publicar a informação antes de você. Sua responsabilidade deve ser publicar melhor que ele. Seus patrões não vão concordar com você, mas tente convencê-los. O mundo está muito apressado, as pessoas estão correndo demais e ninguém sabe exatamente para onde. Sua função é diminuir o ritmo, puxar o freio de mão do planeta e fazer com que prestem atenção àquilo que ninguém vê.

Outra coisa: vocês não têm mais partido político, preferência sexual, time de futebol ou religião preferidos. Na frente da urna, na sua cama, na sua casa ou na igreja, sim. Esses são os únicos lugares em que vocês devem manifestar aquilo que pensam. Para seus leitores, telespectadores ou ouvintes, isso não importa. A única coisa que importa é a honestidade com os fatos. Não tentem empurrar a ninguém suas leituras particulares do mundo. O mundo é muito grande e suas leituras, muito pequenas dentre as bilhões de outras interpretações possíveis.

A partir do momento em que se tornarem jornalistas, vocês assumem um compromisso real com seus leitores, telespectadores ou ouvintes. Vocês não devem ter obrigação com seus patrões, com suas fontes ou com seus colegas, mas um contrato apenas com seus públicos.

Esqueçam essa besteira de diploma. Sentem-se aqui, ao nosso lado, e nos ajudem a recuperar aquilo que há tempos perdemos: o essencial.

Cannes, 26 de junho de 2009.

Rodrigo

* Rodrigo Manzano é Diretor Editorial da IMPRENSA e professor de Jornalismo na graduação e pós-graduação do UniFIAMFAAM, em São Paulo (Publicado no Portal Imprensa)


“Acabaram com o diploma… Mas e daí? ”

A decisão anunciada pelo STF, no último dia 17, pegou de surpresa a categoria de jornalistas diplomados, causando, a princípio, uma apatia geral.

Vi jornalistas antigos e experientes indagando: “E agora, anularam minha vida!”. Vi jovens universitários e formandos se perguntando: “Por que passei todos esses anos estudando para obter um diploma e agora ele não serve para nada?”.

O fim da exigência de diploma para exercer a profissão de jornalista fez gerações de profissionais irem dormir e acordarem no dia seguinte sem respostas enquanto seguiam para mais um dia de trabalho.

Eu tenho 11 anos de profissão e imagine se a partir de agora me perguntarem “o que você faz?”. Respondo: “Sou jornalista”. E a segunda pergunta vem automática: “com diploma ou sem diploma??”.

E que venham as piadas… Teoricamente, qualquer um agora é jornalista, segundo entendimento do STF, até que provem o contrário…

Piada mesmo, quem não achou foram aqueles pais que dão um duro danado para pagar a faculdade particular de seus filhos, aqueles jovens que precisam trabalhar para terminarem um curso superior que agora não vale nada, e aqueles já não tão jovens, que achavam que ter um diploma em pleno século XXI lhes daria melhores oportunidades no mercado de trabalho.

Então depois de muito pensar… Cheguei à seguinte conclusão: Acabaram com o diploma… Mas e daí?

Então, disse aos meus experientes colegas, que depois de tantos anos de profissão, com tantos conhecimentos teóricos, práticos e técnicos, curso de especialização, cursos de aperfeiçoamento, não tem porque achar que anularam minha vida. Pelo contrário, o mercado de trabalho que já estava difícil vai ficar ainda pior com tantos novos jornalistas “sem diploma”. Mas não para nós, que conquistamos, com mérito, nosso espaço.

O argumento de nossos ministros é que todos têm direito ao exercício pleno das liberdades de expressão e informação.

Acontece que nós, da categoria dos jornalistas “com diploma”, não passamos quatro anos e meio na faculdade apenas divagando sobre assuntos e expressando nossos ideais. Para isso, tem outras faculdades mais afins. Creio que exercer o jornalismo vai bem além de exercer a liberdade de expressão.

A minha faculdade e meus estágios, pelos quais os “novos jornalistas” infelizmente não terão a oportunidade de passar, me ensinaram coisas fundamentais, como ética profissional, deontologia jornalística (série de obrigações e deveres que regem a profissão), diferença de linguagem de cada veículo de comunicação, imparcialidade, ouvir os dois lados dos fatos, além de conhecimentos técnicos e em outras áreas, como Economia e Direito.

Agora, não só ministros do STF, Presidente da República, como biólogos, matemáticos, terapeutas, psicólogos, enfermeiros, copeiros e diaristas, podem passar a escrever matérias para jornais, revistas, websites, programas de TV e de rádio.

O presidente do STF, Gilmar Mendes, comparou a profissão de jornalista com a de cozinheiro, o que embora não seja desmerecedor, foi muito infeliz devido à tamanha falta de afinidade entre as duas profissões. Temos bons chefes de cozinha no Brasil, assim como temos bons profissionais em todas as áreas acima citadas.

Mas a conduta profissional do cozinheiro não está associada à boa redação, imparcialidade, veracidade dos fatos, ética, defesa dos direitos do cidadão e dos princípios constitucionais, já a do jornalista, sim. E essa conduta faz parte dos códigos e leis que regem a profissão, aprendidos nas salas de aula das faculdades.

Portanto, cada um no seu quadrado.

Nádia Faggiani – Jornalista e Especialista em Marketing pela FGV


O fim da exigência de diploma para o exercício do jornalismo

diploma

* Tomás Barreiros

O destino de dezenas de milhares de brasileiros portadores de diploma superior de Jornalismo foi afetado hoje por um julgamento levado a cabo por magistrados que demonstraram não saber o que estavam julgando.

Julgava-se a obrigatoriedade ou não do diploma de Jornalismo para o exercício da profissão. Mas todas as falas dos magistrados indicavam que eles estavam analisando outra coisa. Eles falavam do direito à livre expressão do pensamento. Outra coisa, completamente diferente.

O pior de tudo é que eles pareciam nem ter se dado conta dessa diferença. Tal cegueira seria mesmo fruto de uma enorme ignorância a respeito do que julgavam ou haveria outra coisa nos bastidores? Talvez não seja de duvidar essa hipótese, dado, por um lado, o enorme poder político e econômico dos interessados no fim do diploma e, de outro, a tradição de pouca confiabilidade de nosso sistema judiciário.

Será que os juízes do STF acreditam mesmo que os proprietários de veículos de comunicação que defendiam o fim do diploma estavam interessados em defender a liberdade de expressão, como raposas que defendem a abertura das portas do galinheiro para o bem da liberdade das galinhas?

A exigência de diploma para o exercício da profissão de jornalista tem tanto a ver com o direito à livre expressão do pensamento quanto a exigência de Carteira Nacional de habilitação com o direito constitucional de ir e vir.

Pela lógica dos juízes do Supremo, qualquer cidadão poderia dirigir – caso contrário, estaria tolhido na sua liberdade de ir e vir. Pela mesma lógica, os cidadãos poderão prescindir do trabalho dos advogados, em qualquer circunstância, em nome do direito constitucional à ampla defesa.

Como se vê, parecem absurdos – assim como é absurdo relacionar a exigência do diploma com a limitação à livre expressão do pensamento.

Os distintos senhores magistrados do STF têm uma ideia completamente romântica e ultrapassada do jornalismo, como se estivessem parados no século 19 ou início do século 20. Acham que ser jornalista e trabalhar num veículo de comunicação significa expressar livremente o pensamento. Ou seja, eles não têm qualquer noção do que é o trabalho do jornalista. Acham que o jornalista tem como função manifestar seu pensamento – o que todos nós, jornalistas, sabemos que não pode ser feito pelo jornalista, a não ser em casos excepcionais ou muito específicos, como na redação de artigos e crônicas, gêneros, aliás, abertos a qualquer pessoa, com ou sem diploma.

O fim do diploma tem vários subsignificados muito tristes. Como a demonstração do total despreparo dos juízes do STF para julgar uma matéria sem conhecimento mínimo do que estão tratando. A incapacidade da classe dos jornalistas de se articular com força contra os capitalistas da mídia. A facilidade imensa que têm o poder do capital contra a fraqueza dos trabalhadores nas instâncias de poder.

Esperemos agora as consequências do fato. A desvalorização da profissão. O achatamento dos salários. A ideologização cada vez maior das redações. O povoamento das redações com estagiários de vários cursos e com apaniguados do dono do negócio. Funcionários cada vez mais submissos aos condicionamentos do patrão. Enfim, tudo com que sempre sonharam muitos dos donos da mídia.

E os senhores magistrados dormirão tranquilamente, embalados por sua ignorância – que lhes garante estar convencidos de que não fizeram nada de errado.

* Jornalista profissional diplomado e professor universitário