Samsung, LG e Hyundai são acusadas de exploração

Empresas coreanas instaladas no Brasil são acusadas de exploração

Ministério público investiga a fábrica da Samsung em Campinas e outras empresas depois de denúncias de empregados

Campinas, São Paulo – “Já não posso nem me pentear sozinha”, declara, em lágrimas, uma ex-empregada brasileira do grupo sul-coreano Samsung Electronics ao denunciar os abusos e exigências trabalhistas que causaram uma paralisação quase total de seu braço esquerdo.

O caso da jovem, que prefere não se identificar, faz parte de dezenas de denúncias contra a empresa instalada em Campinas, a 100 km de São Paulo, um problema que se repete em outras empresas coreanas recém chegadas ao Brasil.

“Sou muito jovem para sofrer tudo isso”, lamentou a ex-empregada de 30 anos, que deverá ser operada por um desgaste nas cervicais que afetou o movimento de seu braço e pescoço.

A máquina que operava “exigia que eu ficasse com a cabeça virada para baixo por muito tempo (…) Hoje não tenho mais os movimentos do braço e do pescoço. Hoje não tenho mais vida. Não consigo um novo emprego”, soluçou a jovem, que foi despedida após seu problema de saúde.

Choro, amargura e rostos cansados são o denominador comum de vários trabalhadores da empresa de telecomunicações que decidiram denunciar abusos.

“Ordens dadas aos gritos, palavrões e agressões (…) São coisas que nossa cultura não admite”, contou à AFP Catarina von Zuben, fiscal do Ministério Público do Trabalho (MPT) de Campinas, que investiga o ambiente de trabalho das empresas coreanas na região industrial paulista.

A investigação concluiu que as agressões físicas, como empurrões, e psicológicas, como insultos e pressões para aumentar a produção, provocaram “muitos quadros depressivos, problemas na saúde, muitos de ordem mental e de sistema ósseo-muscular”, afirmou.

Os empregados que testemunharam contra Samsung na denúncia do MPT, apresentada em maio de 2010, narraram jornadas extenuantes, com a realização de movimentos repetitivos na linha de produção, além de agressões e tratamento humilhante dos supervisores.

“Se o funcionário não alcança a meta (de produção) estipulada, diziam que lá fora tinha muita gente querendo entrar na empresa (…) Então trabalhávamos como loucos”, relatou à AFP uma empregada, que preferiu não divulgar sua identidade e sofre de tendinite em uma das mãos por causa dos movimentos repetitivos.

Igual a “Tempos modernos” de Charles Chaplin, a jovem executava o mesmo movimento durante 10 horas diárias de pé, juntando placas de telefones celulares. Nem mesmo utilizava os cinco minutos que tinha direito para beber café para não perder tempo.

“Quase fiquei depressiva (…) Era uma funcionária exemplar. Aí você fica doente e já não é mais. É descartada”, acrescentou a empregada que montava entre 90 e 100 celulares por hora quando a meta era 80.

A Samsung despediu a empregada no dia seguinte depois da conversa com a AFP, sem dar explicações, informou o MPT, que investigará o caso.

Segundo um estudo do Centro de saúde do trabalhador (Cerest), muitos dos empregados com problemas ósseo-musculares são jovens que apresentam “lesões degenerativas relacionadas a velhice”.

A pressão dos supervisores para aumentar a produção, soma-se a constante ameaça de demissão.

“As pessoas têm medo de denunciar por medo de perder o trabalho”, afirmou outro empregado, que tem “certeza absoluta” de que em breve será demitido por ter denunciado as situações de abuso.

A fiscalização do Trabalho entende que se trata essencialmente de um problema de diferença cultural, já que também foram registradas queixas similares nas coreanas LG e Hyundai (fábrica em construção). O ministério pretende assessorar as empresas asiáticas que querem se instalar na região quanto à legislação trabalhista brasileira.

“A cultura (empresarial) asiática está baseada em uma hierarquia rígida e de cumprimento de metas”, destacou Yi Shin Tang, professor da Universidade de São Paulo, especialista em companhias asiáticas, ao destacar que os brasileiros “trabalham quatro, cinco meses (nestas empresas) e não aguentam a pressão”.

A Samsung firmou em agosto um acordo judicial com o MPT se comprometendo a acabar com o abuso trabalhista e pagar uma indenização por danos morais de um total de 500.000 reais. Mas, segundo os empregados consultados, a situação não mudou.

“Antes se trabalhava a base de golpes. Agora não, mas só por causa das denúncias”, declarou o operador Walter Manoel, pertencente ao Sindicato de Metalúrgicos, que afirmou ter sido ameaçado após o acordo.

Com o acordo judicial, a Samsung considera “o assunto oficialmente terminado”, disse a empresa em um comunicado enviado à AFP, onde destacou estar “comprometida em manter o bem-estar de seus funcionários”.

Matéria publicada na revista Exame.


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