12 perguntas sobre o WikiLeaks

Nos últimos três dias, o vazamento das comunicações diplomáticas americanas pelo WikiLeaks dominou minhas leituras, aulas, colegas de classe e de trabalho, professores e os diplomatas (incluindo ex e futuros), ativistas e advogados com quem falei. Até para o marido (que também é jornalista) sobrou discussão.

Tenho algumas ressalvas ao trabalho de guerrilha da informação desenvolvido pelo Julian Assange, mas até agora vejo mais méritos do que deméritos (a curiosidade é mais forte do que a preocupação).

A ver como continuam os futuros vazamentos. Assange se diz jornalista, mas eu o vejo mais como um ativista. Fuçar os documentos para achar o que há de relevante cabe aos jornalistas (como bem fez o Fernando Rodrigues, aqui na Folha) e historiadores (caso do Timothy Garton Ash, no “Guardian”).

Se não, corremos todos o risco de ficarmos presos nesse zumbido sobre o gosto do ditador Muammar Gaddafi por dança flamenca e enfermeiras gostosonas. Divertido, mas e daí?

Vou enumerar algumas questões levantadas nesses últimos dias por essa gente toda que eu ouvi ou li (outras são dúvidas minhas).

Nem todas têm resposta, sobre algumas eu tenho posição, e o leitor fica convidado ao comentar o que quiser.

1) A questão mais importante, para os diplomatas, é para o Departamento de Estado e ao Pentágono: como um recruta de 22 anos, estacionado no Iraque, consegue acessar tudo isso com tanta facilidade?

Sem resposta aqui. Eu sou do tempo em que passava Agente 86 na TV, e acho que tudo que é secreto deveria ser guardado por dezenas de portas, senhas e firewalls. Parece que algo falhou. Essa é uma pergunta que o governo americano tem de fazer para seus funcionários.

2) Vazar essa tonelada de documentos ajuda ou só tira o foco das discussões que realmente interessam?

Depende, e há argumentos de ambos os lados.

No caso do Brasil, os documentos não trazem um fato surpreendente em si, mas ajudam a entender a imagem que os EUA têm do pais e como as relações se dão.

Acho importante saber quais as prioridades americanas aqui, quem eles andam perfilando (como a comunidade libanesa em São Paulo ou na Tríplice Fronteira) e no que eles acreditam (tipo, que há 20 mil membros do grupo Hizbollah no país – nesse caso, não importa se você vê o grupo como terrorista ou como ativista/assistencialista, o ponto é que os EUA vêem como terrorista e querem cerco cerrado).

Mas também acho que cabe aos jornalistas, sobretudo às apressadas agencias de notícias, acertar o foco. Para que os leitores/espectadores não corram o risco de serem inundados e distraídos apenas por obviedades e fofocas sobre enfermeiras ucracianas e nobres ingleses.

3) É muito barulho por nada, como disse o presidente Lula, e de fato não há novidade nos telegramas?

De novo, sim e não. Não há nada inesperado ou grandioso até agora, mas nem por isso o que consta dos telegramas era amplamente disseminado ou sabido por aí. O material ajuda a montar as peças do que é a política externa hoje e nas décadas recentes. E não só dos EUA, também de outros países.

Afinal, os telegramas expõem impressões dos americanos sobre os demais países _veja o caso da China como a Coréia do Norte ou do Brasil coma França. São impressões, sim, mas é a avaliação com a qual os EUA trabalham.

4) O trabalho dos diplomatas vai ficar mais difícil?

Vai. Não só dos americanos. Ouvi alguns, e a preocupação geral é a seguinte: “se tudo que fazemos pode ser aberto ao mundo, vamos pensar duas, três, cinco, dez vezes em quem confiar”.

E isso inclui tanto gente de outros governos como os colegas da mesma chancelaria, porque, afinal, vai saber quem pode ser o próximo vazador. Ou seja: menos franqueza e mais demora.

5) Mas quem não deve não teme, certo?

Governos têm de prestar contas, e acredito piamente que devam ser expostos quando enganam suas populações ou quando são enganados por outros governos.

Por outro lado, expor absolutamente todas as conversas, inclusive as que não têm nada de errado ou não têm importância, vai deixar o trabalho muito mais engessado. E diplomacia, como eu canso de ouvir por aqui, é gente na mesa conversando. Claro que as palavras são medidas, mas agora o escopo vai ficar muito menor.

6) Isso mostra que os EUA estão espionando os outros países?

Na verdade não, esse trabalho de escrever relatórios e avaliações é inerente à política externa de todo pais. Até agora nada indica que pessoas foram grampeadas ou seguidas. As informações vazadas são relatos de encontros, entrevistas etc. Ouvi diplomatas não-americanos que disseram que essa é a prática normal. O que surpreendeu um pouco foi a linguagem.

7) Eles ofenderam alguém?

Provavelmente, sobretudo porque os relatórios trazem comentários em linguagem bastante deselegante e observações francas demais. O Itamaraty, por exemplo, costuma tomar cuidado em manter a linguagem formal nos telegramas.

É preciso amornar as sensibilidades porém. À primeira vista, perguntar se Cristina Kirchner toma medicação psiquiátrica pode soar como chamá-la de louca – o que, aliás, é uma visão preconceituosa. Mas é normal que um governo queira saber, ao perfilar outros líderes, se há algo que possa interferir em seus julgamentos.

8) O que Assange fez coloca a segurança nacional americana em risco?

Não, pelo menos do jeito como foi feito até agora. Ouvi esse comentário em discussões por aqui, e de diplomatas. Ele também ecoou, de forma mais aguda, entre congressistas americanos, com destaque nos jornais locais. Mas, pelo menos até agora, questões cruciais de segurança, segredos de Estado, não aparecem no material. E em ocasiões anteriores, como nos papéis sobre o Afeganistão, nomes em risco foram apagados.

9) E os EUA não podem usar isso a seu favor de nenhuma maneira?

Ativistas já levantaram a questão de se, de certa forma, o material vazado não serve aos propósitos americanos, não funciona como propaganda. De fato, dizer que o Irã está isolado pelos vizinhos árabes ou que a China está prestes a retirar seu apoio à Coréia do Norte reforça a cartilha americana.

10) Vazar os documentos é antiético?

Do ponto de vista jornalístico não, do ponto de vista nacionalista (onde incorre o recruta vazador), talvez. Essa é uma pergunta que só poderá ser respondida quando todo o material for cuidadosamente escrutinado.

Eu, pessoalmente, acho que é ético e válido se for encontrado material de relevância pública, que leve as pessoas a pensar e debater sobre as práticas atuais.

Por outro lado, temo que jogar uma enxurrada de informação, absolutamente tudo, pormenores e detalhes inúteis, como o site faz, possa acabar deixando a diplomacia acuada demais. Nesse caso, o propósito conta _é denúncia ou é só espuma?

Por isso acho que o trabalho cuidadoso de nós, jornalistas, é crucial.

11) Os EUA podem prender e julgar Assange? Ele pode ser enquadrado como terrorista?

De jeito nenhum, sob nenhuma ótica, o WiikiLeaks pode ser considerado organização terrorista. Eles não estão usando nenhuma forma de violência para manter a população, ou grupos dela, amedrontada e acuada para assim obter vitórias e vantagens políticas.

Não sendo cidadão americano, não vivendo no país e não sendo ele quem retirou o material, não pode ser julgado aqui. A menos que achem uma brecha pela Lei de Espionagem, o que me parece complicado e temerário. Já o recruta que pegou os dados, sim, pode responder criminalmente.

12) Mas, afinal, o que Julian Assange quer?

Liberdade plena de informação, segundo ele, e publicidade, segundo seus críticos. Recomendo a leitura do perfil do Assange publicado pela revista “New Yorker” em junho (aqui, em inglês).

Escrito por Luciana Coelho


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