Wim Wenders expõe fotos inéditas e é homenageado na Mostra Internacional de SP

Se é na estrada que se passa boa parte dos filmes de Wim Wenders, é também a ela que o cineasta alemão recorre para criar imagens que não se movem.

Para a exposição de fotografias que abre na quinta-feira para o público e fica em cartaz até janeiro no Masp, “Lugares, Estranhos e Quietos”, ele percorreu sítios distantes como a Armênia, o Brasil, a Austrália e o Japão em busca de segredos que apenas seu olhar viajante poderia desvelar.

O homem que, ao lado de Rainer Werner Fassbinder, Werner Herzog e Volker Schlöndorff ajudou a reerguer o cinema alemão após a Segunda Guerra Mundial é ainda um dos homenageados da 34ª Mostra Internacional de Cinema, que começa nesta sexta e se encerra em 4 de novembro.

Wenders, 65, produziu um dos cartazes desta edição do festival –o outro leva a assinatura do diretor japonês Akira Kurosawa (1910-1998), que também ganha homenagem por seu centenário.

Ele traz a São Paulo uma seleção com o melhor de sua produção: há o deserto vasto de “Paris, Texas” (1984), a solidão angelical de “Asas do Desejo” (1987) e “Um Filme para Nick” (1980), em que registra a morte de Nicholas Ray (1911-1979).

Mostra ainda pela primeira vez no Brasil a versão definitiva, editada por ele, de “Até o Fim do Mundo” (1991), com 280 minutos de duração. Wenders foi convidado pela organização para apresentar o filme, mas ainda não confirmou sua presença.

No momento, ele conclui um documentário sobre a bailarina e coreógrafa alemã Pina Bausch, que morreu subitamente vítima de um câncer, no ano passado.

O filme, idealizado há mais de 20 anos, foi feito inteiramente em 3D e deve estrear na Alemanha em 2011.

Confira a seguir a íntegra da entrevista que o cineasta deu à Folha.
Folha – O sr. disse certa vez que era um criador de imagens e se tornou um contador de histórias. Como se deu essa passagem?
Wim Wenders – Em meus primeiros filmes eu estava interessado nas imagens, mais do que nas histórias, e pouco a pouco fui aprendendo o que conseguiria fazer ao colocar uma imagem ao lado da outra. Minhas primeiras histórias eram bem frouxas, não eram nem histórias, elas tentavam seguir certa cronologia, alguém caminha por uma cidade e isso era a história. E vagarosamente eu fui descobrindo o poder das histórias, me interessei mais e mais –este sou eu cineasta.
Como fotógrafo eu me organizo de uma forma muito diferente. Não quero me impor, não quero levar uma história para esses lugares, eu quero apenas ouvir suas histórias, não trazer a minha. Quero deixar o lugar aparecer como ele é, e é por isso que faço fotografias grandes, se você fica diante delas você também tem a chance de estar lá.

A exposição no Masp se chama “Lugares, Estranhos e Quietos”…
É sobre os lugares estranhos que eu vejo, porque eu viajo muito e tento encontrar lugares que nem todos encontram. Sou atraído por certos lugares bem estranhos, mas que têm uma beleza própria. Às vezes eles estão abandonados, ou perdidos, esquecidos. E às vezes os encontro mesmo que as pessoas que moram lá não saibam que eles existem, como este grafite dos nossos amigos brasileiros Otávio e… [aponta para uma das fotografias, que mostra uma obra de Otávio e Gustavo Pandolfo, da dupla Osgemeos]. Em Wuppertal (Alemanha), nenhum dos 35 dançarinos da Pina Bausch Ensemble, que moraram lá a vida inteira, nenhum tinha ouvido falar deles. Fica numa ferrovia abandonada, então você nem consegue mais ir lá. Às vezes, acho lugares que, mesmo as pessoas que moram lá, como esta torre em São Paulo, não sei se as pessoas sabem como é o topo deste prédio. Ou [fotografo] edifícios que estavam ali apenas por alguns dias, como o Palast der Republik [Palácio da República, símbolo do regime comunista alemão], que foi demolido e nada mais sobrou. Eu apenas viajo. Gosto de ir sozinho, me perder, encontrar coisas. Tenho um instinto muito especial para achar o que eu quero. É muito raro que alguém tenha me mostrado alguma coisa interessante. Nas suas próprias cidades, as pessoas não são curiosas, você acha que sabe tudo, você conhece seu caminho usual, mas não conhece os segredos da sua cidade.

Durante essas viagens surgem ideias ou locações para seus próximos filmes?
Pelo contrário, eu tento não ter ideias. Quero conhecer esses lugares, descobrir suas almas e as histórias que eles têm pra contar. Não tenho nenhuma outra intenção além de estar lá e fotografar.

Você esteve aqui em São Paulo há dois anos… Como enxerga a cidade?
É muito movimentada… como devo dizer? É como uma metrópole, quase um pouco futurista. O engraçado em São Paulo é essa mistura, ser tão anos 50 e 60, e ainda ter um toque futurista. A cidade foi construída com essa ideia futurista, e é claro que o tempo passou, e ainda é uma ideia futurista, mas do passado. Eu gosto desta mistura, gosto muito deste edifício [o Masp], é muito de um sonho dos anos 50 e 60, e ainda fica de pé. Ainda é grande arquitetura, e ainda há certa utopia, ainda que não seja nova.

Na Mostra Internacional de Cinema você mostra o seu corte de “Até o Fim do Mundo”, de 280 minutos. O que há de novo nesta versão em relação à primeira?
Eu queria mostrar a minha versão de “Até o Fim do Mundo” porque nunca foi vista aqui neste país. Não tem nada a ver com a outra versão, é duas vezes mais longa. A versão curta foi mutilada, este é o filme que eu queria fazer, e pude apenas editá-lo dez anos mais tarde. A versão curta [de duas horas e meia] foi uma experiência muito triste na minha vida porque fui forçado a lançar o filme pela metade. Estávamos fazendo uma aventura épica e você só pode ver o filme nas quatro horas e meia que estamos mostrando agora. É a única versão, a coisa mais ambiciosa que já fiz em toda a minha vida e estou muito orgulhoso dela.

Seu próximo filme, “Pina”, sobre a coreógrafa Pina Bausch (1940-2009), será lançado em 3D. Acha que é este o futuro do cinema?
Sim, mas o 3D é sobretudo o futuro do cinema documentário. Ele vai sobreviver em animações, obviamente, e em blockbusters, mas acho que o verdadeiro futuro está no cinema documentário. Ele foi feito para isso, para representar a realidade, muito mais do que para representar a fantasia. Por vinte anos, eu hesitei em fazer o filme, até que a nova tecnologia 3D apareceu e eu disse a Pina: “Agora podemos fazê-lo”, e ela disse: “Vamos!”. Eu esperei vinte anos porque achei que não podia mostrar seu trabalho corretamente em um filme plano normal, porque a dança depende muito do espaço. Achei que retiraria alguns elementos da dança se filmasse apenas em duas dimensões. Infelizmente ela morreu antes de começarmos a filmar, mas ela sabia que seria em 3D e ficou feliz. Está quase pronto, vai ficar pronto no final do ano e sairá na primavera do ano que vem, mas apenas em 3D.

Como sentiu a morte de Dennis Hopper [vítima de câncer, em maio deste ano]?
Dennis era um amigo muito, muito querido, falamos muito por telefone durante seu último ano, e ele estava ciente do que estava acontecendo. Ele foi corajoso e manteve o humor até o fim.

Acaba de estrear no Brasil a série “Boardwalk Empire”, de Martin Scorsese. Concorda quando dizem que a vanguarda americana migrou do cinema para a televisão?
Pode ser. Muitas séries de TV americanas se aventuram mais do que a maioria dos filmes, porque os filmes americanos são feitos de uma maneira muito conservadora, a maioria é feita com receitas e fórmulas. Fazer filmes nos Estados Unidos se tornou extremamente conservador. Há coisas mais corajosas acontecendo.

O senhor mencionou, em sua visita ao Brasil em 2008, que gostaria de filmar Brasília. Tem mesmo esses planos?
Nunca se sabe, as coisas acontecem, não planejo muito. Naquela época eu não achei que faria uma exposição de fotos aqui. Embora eu falasse com Pina sobre o filme por 25 anos –foi em 1984– eu o fiz apenas no ano passado, no ano anterior eu não sabia. Então você pode sim me achar um dia no Brasil, e eu não saberei até alguns meses antes. Gosto de ser surpreendido.

Há ainda um lugar que você não conhece e queira ver?
Muitos. Nunca viajei a Índia, por exemplo, em toda a minha vida. Ou à Birmânia, ao Paquistão, ainda quero ir à Sibéria. Eu viajo extensivamente, mais do que a maioria das pessoas que eu conheço, mas o planeta é enorme.

JULIANA VAZ – COLABORAÇÃO PARA A FOLHA (19/10/2010)


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