Na barriga da besta

Um relato cru e frio da rotina de crimes, vingança e crueldade de uma das áreas mais perigosas e pobres da zona sul de São Paulo
Por Yara Morais

“Menina, você não é daqui, não!” a voz vem de um rapaz alto, de olhos verdes e cabelos negros, que bebe cerveja diante do balcão de um boteco nada convidativo. Me encarando, ele diz para o amigo ao seu lado: “Aí, meu velho, não tô falando que os playba agora tão subindo o morro!? Tá fazendo o que aqui, menina?”

Sem água potável em meu barraco, eu estava ali apenas com o objetivo de comprar um refrigerante para matar a sede. Mas respondi a verdade, detalhadamente: contei que era uma estudante de jornalismo, que há quatro dias alugara um barraco durante um mês para morar naquela região porque esse era o único jeito de eu fazer meu trabalho de conclusão de curso cujo tema era “periferia”. Contei que a Zona Sul de São Paulo foi o primeiro lugar que me veio à cabeça, que sem conhecer ninguém peguei a mochila e fui para o Capão Redondo, onde andei horas por Jardim Ibirapuera, Jardim São Bento, Parque Santo Antônio, e que, finalmente, decidi ficar ali, no Morro do Piolho. Que foi Dona Bete, uma moradora local, mãe de dez filhos – nove deles presos -, quem me ajudou a encontrar um barraco para alugar por apenas R$ 65 mensais.

Mas não contei que eu tinha a nítida sensação de que tudo na minha vida mudaria depois dessa experiência. Nem que minha mãe dizia: “Você é mesmo doida”, ou que parti para a Zona Sul levando uma TV de 14 polegadas, um colchonete e uma mochila nas costas com dois pares de tênis, jeans, blusas, um velho skate, R$ 80, um cartão telefônico e um bilhete único, sem saber que lá eu viveria situações que nem o mais experiente dos repórteres policiais jamais presenciou ou sobreviveu para contar.

Também não contei do medo quase palpável que me acometeu no dia em que cheguei ao Morro do Piolho e ouvi, na primeira esquina que virei: “Vacilou é assim memo (sic), os maluco degola! (sic)”. Guardei para mim aquela primeira tarde em meu novo lar, quando entrei no barraco, joguei as coisas ali no chão mesmo, abri o colchonete e caí no sono, para acordar por volta das 11 da noite, tomar coragem, abrir a porta e me deparar, lá de cima, com uma das imagens mais incríveis que eu já vira: até onde a vista alcançava, as luzes de milhares de casas e barracos pareciam formar uma constelação.

O rapaz no bar, então, baixou a guarda, deu um último gole na cerveja e se apresentou. Seu nome era Leo e se definia como “o braço direito do sistema”, o homem de confiança de quem comanda as operações no Morro do Piolho – este controlado pela organização criminosa Primeiro Comando da Capital, o PCC. O que Leo não havia dito é que “o sistema” era, na verdade, seu irmão mais velho, Gabriel, com quem eu já havia cruzado pelo morro sem saber quem era.

Leo fez questão de me explicar o que todos os moradores já haviam me dito previamente: na favela, ninguém vê nada, ninguém fala nada. Essa era a lei. Na despedida, após quase duas horas de conversa, ele fixou os olhos nos meus e me deu um forte aperto de mão, transmitindo a certeza de suas palavras e o peso das consequências se eu não as aceitasse como regra.

Naquele dia, o céu estava azul como eu nunca havia visto antes. Embaixo do sol radiante, moleques só de bermuda e chinelo corriam, soltavam pipas, rodopiavam os peões, disputavam bolinhas de gude. As crianças brincando e eu reparando cada sorriso, cada gesto, como se fossem únicos. Aquilo, sim, era infância. Aquilo, sim, era brincadeira de verdade – sem videogames, MP3, internet ou celulares. Sentei na calçada, ali no terrão mesmo, e me senti criança outra vez. Acabei-me de tanto correr, rir, e até soltar pipa como um menino. Aquelas pequenas pessoas me mostravam que, se a felicidade mora em algum lugar neste mundo, deve ser naquele exato lugar onde eu me encontrava.

A tarde chegou e subi para tomar banho. Haveria uma festa naquela noite e eu fora convidada. Era aniversário de um dos netos de Dona Bete, e seria na casa daquela senhora humilde que me acolheu como se eu fosse parte da sua família. No banheiro improvisado do barraco, enquanto me lavava com a água fria tirada de um balde com a ajuda de uma caneca, dava para escutar de longe: “Na minha casa todo mundo é bamba/ Todo mundo bebe, todo mundo samba”. Na festa, as pessoas dançavam, conversavam e se divertiam, alheias ao submundo com que convivem lado a lado. A comida era ótima. Sentia a alegria emanar de cada um dos presentes e se espalhar por todos os cantos. Aquela era a melhor festa da minha vida.

Na manhã seguinte, fui comprar pão e, ao olhar para as pessoas, tive a sensação de conhecê-las, de que de alguma forma eu já fazia parte delas e elas de mim. Eu me sentia leve, mas não podia esquecer a minha missão naquele lugar. Nem se quisesse. Foi na noite desse mesmo dia que vi a morte de perto. Bateram na minha porta. Era Leo. Ele falava rápido, as mãos gesticulando no ar, os olhos cheios de ódio e desejo de vingança. “O Gabriel mandou te chamar! Não quer registrar tudo, jornalista? A hora é agora!” Peguei a mochila e os equipamentos – uma câmera e um gravador digitais – e o segui sem saber o que me aguardava.

Os caras do “bang”, o pessoal que controla o tráfico de drogas no Morro do Piolho, iriam cobrar uma dívida de R$ 15 mil e, já que o devedor não tinha como pagar com dinheiro, pagaria com a vida. Menos de dez minutos de caminhada depois, chegamos a uma casa de alvenaria na entrada de uma favela vizinha.

Um grupo de cinco homens comandados por Gabriel arrombou a porta e pegou um homem com menos de 30 anos que estava dormindo. Vendaram-lhe os olhos e, deixando-o somente com uma cueca branca, rasgavam-lhe a carne sem pressa, primeiro com um canivete, depois com uma enorme e afiada faca, como as que são usadas nos açougues. Reluzente a lâmina deslizava pelo corpo com a paciência impiedosa da morte, abrindo-lhe a pele. Os olhos de Gabriel apenas observavam, frios, enquanto as mãos de seus soldados faziam um macabro traçado com a ponta do objeto. Cada um cortava um pouco, em um ritual bizarro de vingança. Os cortes eram pequenos, no entanto, profundos e em grande quantidade. O sangue jorrava.

Você lê esta matéria na íntegra na edição 40 da revista Rolling Stone, janeiro/2010


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