As agências de notícias: mais indispensáveis do que nunca

Philippe Massonnet e Juliette Hollier-Larousse*
Pode o mundo da mídia ficar sem agências de notícias? Essa questão, recorrente desde que a internet começou a se impor como vetor indispensável de informação, às vezes agita as salas de redação, uma vez que a crise econômica abala gravemente o cenário midiático. Às vezes a questão se transforma em fórmula fácil, ou até em afirmação mágica. Especialistas em mídia acreditam que as agências de notícias não estão adaptadas às necessidades de seus clientes, e, portanto, de seus usuários, e também inadaptadas ao mundo da internet, à informação do século 21, ao universo do Facebook e do Twitter. Enfim, caretas.

Nos Estados Unidos, na Europa, na França, alguns jornais atingidos pela crise e atraídos pela repentina inflação de fontes gratuitas de todo tipo estão reconsiderando as assinaturas dos serviços das agências. Não são a qualidade ou a pertinência das informações fornecidas pelas agências que são as culpadas, mas sim seu preço.

Diante dessas questões e críticas, as agências de notícias devem afirmar em alto e bom som que são um ingrediente insubstituível para uma informação completa e de qualidade. E encontrar os meios para fazer isso. Além disso, é a busca por um financiamento mais garantido, respeitando a lei européia, que faz com que a Agence France-Presse (AFP) queira se dotar de um novo estatuto, que proteja sua independência tanto quanto o estatuto atual.

Decana das agências mundiais, a AFP continua sendo uma referência, um farol em um oceano de notícias mais ou menos confiáveis, de rumores, de afirmações tendenciosas, publicadas e republicadas todos os dias em todas as mídias. Para ela, uma declaração, uma afirmação ou uma confidência só se tornam informação depois de serem rigidamente verificadas junto a suas fontes.

Diante das rádios e dos canais de televisão especializados em notícias, dos websites dos jornais, dos blogueiros e de outros twitteiros, a AFP se viu diante de uma exigência cada vez maior de rapidez. Mas o que ela busca não é necessariamente ser a primeira. Não, é primeiramente e acima de tudo oferecer uma informação confiável, certificada, que as outras mídias poderão transmitir, divulgar, analisar, comentar sem perigo. Informação de confiança, mas também pluralista, imparcial, independente, variada, aberta para o mundo.

Nessa época de restrições orçamentárias, de redações que se estreitam, de postos de correspondentes no exterior que desaparecem, da fusão superficial de notas, a AFP mantém e estende sua rede mundial e multicultural feita de jornalistas, de fotógrafos, de cinegrafistas. Ela alimenta continuamente as redações com informações vindas das grandes capitais internacionais, das zonas de conflito – Afeganistão, Iraque, Paquistão, Somália – , mas também de países esquecidos, perigosos ou de difícil acesso, como Mianmar, República do Congo, Colômbia ou Tchetchênia. É sua missão.

Ela aplica essas mesmas regras para relatar o mundo em sua diversidade sobre todas as temáticas que ela cobre: política, economia, sociedade, estilo de vida, meio ambiente, esportes, alta tecnologia, cultura… Ela o faz em seis idiomas, em texto, foto, vídeo, infográficos.

São ainda as agências que hoje permitem às redes de televisão que planejem seus grandes eventos, às rádios que deem suas primeiras informações na hora, aos jornais que forneçam suas análises, aos websites que atraiam audiência, aos blogs que instiguem comentários sobre a atualidade.

Quando a comissão financeira do Senado vota, para surpresa geral, a volta para o imposto de 19,5% no setor de restaurantes, a informação, dada pelas agências, vira manchete de cerca de quarenta jornais noturnos em rádios ou televisões. Quando, finalmente, a emenda é rejeitada, são ainda as agências que permitem que as mesmas redes, de manhã, expliquem que na verdade não passava de um alerta dirigido aos donos de restaurantes.

A partir do Afeganistão, do Paquistão, suas equipes locais fornecem não somente os fatos – atentado em Peshawar, ofensiva no Waziristão, eleição contestada de Hamid Karzai – mas também os esclarecem e os explicam, detalhando as questões, entrevistando analistas, esclarecendo situações específicas, dramas humanos.

Às vezes esquecemos que a agências não são somente fornecedoras de matéria bruta, de notas breves. Elas criam temas completos, revistas. Assim, enquanto o 62º Congresso Mundial dos jornais, que acaba de acontecer na Índia, levantava a questão do futuro da imprensa, um grande jornal indiano publicava um artigo e uma foto da AFP sobre… a reinserção de prisioneiros romenos por meio do teatro.

São poucas as mídias que podem se gabar de possuir uma rede mundial composta por mais de 2 mil jornalistas ou uma redação de 23 pessoas dedicadas à cobertura da política francesa. Sabiam que a AFP faz a cobertura fotográfica de cada partida da Premier League inglesa de futebol, cujos jogadores são estrelas no mundo inteiro?

E o que dizer dos custos de cobertura de longos conflitos, que precisam do rodízio de inúmeros jornalistas em campo, operando em condições difíceis, extenuantes, perigosas? E dos custos da segurança necessária a nossos escritórios de Bagdá ou Cabul? Ou dos custos das equipes com mais de cem pessoas enviadas para grandes eventos esportivos como os Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo?

Essas informações de qualidade, produzidas por profissionais, que obedecem a regras claras e rígidas, têm um valor que as agências de notícias devem fazer respeitar em todas as mídias. Se elas têm consciência das dificuldades de seus clientes, elas não podem liquidar seus conteúdos, nem tolerar sua pirataria.

Cúmulo da má fé e da falsificação, às vezes são os mesmos que atacam as agências e sonham com sua morte que as utilizam de forma abundante, sem terem adquirido o direito para isso!

Nesse mundo em plena mutação digital, as agências entenderam que devem se adaptar e responder melhor a seus clientes: os novos, cada vez mais numerosos, e os antigos, cujas críticas às vezes não souberam ouvir.

Ao longo de sua história, a AFP soube evoluir para responder às necessidades de sua época. Ela continua a fazê-lo desenvolvendo novas temáticas, produzindo mais imagens todos os dias – estáticas ou animadas – , utilizando, após verificação, os conteúdos de certas redes sociais, acelerando seu desenvolvimento multimídia. Todos os dias ela seleciona as informações-chave para os portais da internet e celulares, os enriquece com slideshows, vídeos e links. Ela oferece novas parcerias e novos serviços aos órgãos de imprensa, explora novos mercados.

Se as agências não existissem mais, os internautas certamente ficariam sabendo sobre a morte de Michael Jackson por meio de um website especializado em celebridades. Mas quem teria certificado a informação para lhe dar toda sua credibilidade? Mais do que nunca, é papel das agências de notícias guiar os cidadãos do mundo pelo grande labirinto midiático.

*Philippe Massonnet e Juliette Hollier-Larousse são diretores de informação da AFP.

Tradução: Lana Lim (Uol Internacional)


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