E os arquivos da Folha?

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por Luiz Carlos Azenha

O último jornal que eu assinava, o Valor Econômico, vai dançar em breve. É ruim, com algumas exceções. Raro encontrar algo que valha a pena. Tem muito de “relações públicas” e pouco Jornalismo. Poucas matérias instigantes, das quais você se lembre no dia seguinte. Tal é o estágio do jornalismo brasileiro, vítima da arrogância dos patrões, conivência ou má qualidade dos profissionais — frequentemente uma combinação dos dois — e submissão a interesses políticos ou econômicos de certos grupos.

Pela internet recebo artigos. Um deles, de Janio de Freitas, faz críticas ao historiador Marco Antonio Villa, aquele que “reescreveu” a História da ditadura militar brasileira para se enquadrar na versão “ditabranda” do jornal. O “artigo” do “historiador” está aqui.

A Folha sempre foi um jornal marqueteiro. Nada me tira da cabeça que essas polêmicas são produzidas para dar vida ao jornal.

As polêmicas “internas” acabam servindo a um objetivo, consciente ou não: escamotear a história do próprio jornal. O grupo Folha da Manhã colaborou com a ditadura militar. Deu apoio material ao regime.

Veículos foram utilizados para transportar presos politicos. A  Folha da Tarde foi “entregue” aos órgãos de repressão, de acordo com o livro “Cães de Guarda“, de Beatriz Kushnir. Ouça aqui o depoimento da Beatriz.

O ex-preso político Ivan Seixas me disse textualmente: “Vi um carro da Folha da Tarde na porta da Operação Bandeirantes (OBAN)“, o centro de tortura da rua Tutóia, em São Paulo. Ouça aqui o depoimento de Ivan.

Uma leitora do Viomundo escreveu que foi transportada em uma C-14 de propriedade do jornal. Ela escreveu:

laura (08/03/2009 – 05:46)
A Folha fornecia suas peruas de distribuição de jornais, as C 14 para levar os presos sob metralhadoras para serem tortrurados ou morrer no DOI-CODI. Eu fui levada para lá, numa delas, beje.Quando vc via uma perua c14 sabia que estava sendo perseguido. Essa a contribuição da Folha para a SUA “ditabranda”. Há que falar claramente qual é a “liberdade” da Folha de São Paulo, um jornal que mente.

A jornalista Rose Nogueira, em entrevista a Rodrigo Vianna, mostrou os documentos que comprovam que foi demitida por “abandono de emprego” quando até as pastilhas da Barão de Limeira sabiam que ela estava na cadeia. Clique aqui para ir ao site do Rodrigo.

Um jornalista do Meio&Mensagem foi demitido por escrever a verdade sobre Otávio Frias de Oliveira. A biografia do publisher da Folha não toca nesses assuntos. Está aqui.

Como é que um jornal pretende cobrar transparência do governo federal, do governo estadual e do governo municipal se não é transparente em relação à sua própria História? 

Não acho que a Folha seja particularmente melhor ou pior que este ou aquele jornal ou grupo de mídia. Que ela coloque os negócios acima do Jornalismo é previsível. Mas que faça isso com a conivência de jornalistas e historiadores e políticos me incomoda. Os coniventes com isso só pensam em uma coisa: nos artigos que pretendem publicar na Folha, nas resenhas sobre os livros que pretendem lançar, nas notas “amigas” nas colunas do jornal. Tal é o poder da mídia no mundo de hoje: o de elo de ligação em uma sociedade ao mesmo tempo de massas e atomizada em grupos de interesse. Caberia à mídia o papel de fazer essa interação, dando voz a todos os agentes políticos e econômicos.

Mas o monopólio exercido por algumas famílias sobre a mídia dá a elas esse papel extraordinário. Eles não só filtram a informação, eles vendem livros, discos, filmes. Escritores, músicos e cineastas ficam, portanto, subordinados aos interesses da grande mídia. O mesmo vale para historiadores e cientistas. E artistas. Quem é o autor que vai criticar a Folha publicamente se amanhã o jornal fará uma resenha sobre a peça de teatro que ele escreveu? Qual é ator que vai criticar a Globo e correr o risco de ser banido da televisão? Mesmo os políticos massacrados pela mídia se recusam a admitir o óbvio: como está, não dá para ficar. Quantos episódios semelhantes às campanhas midiáticas em defesa do banqueiro Daniel Dantas seremos obrigados a testemunhar?

Infelizmente, a mídia corporativa brasileira assumiu para si o papel que a Censura Federal fazia na ditadura militar: enquanto censura alguns atores políticos e econômicos — quando não os criminaliza –, faz propaganda em defesa de outros. Por isso é preciso ir além das picuinhas eventuais a respeito deste ou daquele jornalista, deste ou daquele orgão de imprensa. É preciso pensar genuinamente na promoção de políticas públicas que sejam capazes de combater a ditadura midiática que nos foi imposta por meia dúzia de famílias.

 


Uma resposta para “E os arquivos da Folha?

  • Rogerio Nascimento

    Não é à toa que A Folha tem impresso como slogan ” um jornal a serviço” do Brasil. Foi muito útil ao país na década de 70-80.

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