Quando é preciso chocar sem morbidez

Faz tempo que quero destacar a coluna do ombudsman da Folha de São Paulo, atualmente sob o comando de Carlos Eduardo Lins da Silva, publicada aos domingos. 

Para os estudantes de jornalismo, entrar em contato com essa análise do próprio veículo é extremamente enriquecedor, e aliado aos exemplos e dicas de livros e filmes, só temos a ganhar com tanta informação. Aproveitem!

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Fotografias chocantes podem ajudar a manter vivos na memória coletiva horrores inomináveis e, com isso, dificultar a ocorrência de similares


Desde o caso da morte de Isabella Nardoni, em abril, o ombudsman não recebia tantas mensagens sobre um mesmo assunto numa semana, como nesta, de Ano-Novo, sobre o conflito entre Israel e palestinos.
Como é natural, com grande carga de emoção em todas e clara divisão entre as que veem no jornal proteção para um ou outro lado.
Dois leitores se queixaram de fotos de crianças mortas. Zuleika Haddad perguntou: “Por que a Folha precisa estampar foto de uma menina de 4 anos em seu funeral?“. Geraldo Pietragalla Filho argumentou que as fotos “em nada contribuem para a compreensão dessa guerra insana; são manifestações mórbidas”.

A morbidez deve ser evitada a todo custo, e o jornal precisa tomar muito cuidado com isso. Não acho que tenha esbarrado nela por enquanto.
Imagens fotográficas chocantes podem servir a propósitos humanitários e ajudar a manter vivos na memória coletiva horrores inomináveis e, com isso, dificultar a ocorrência de similares.

Como as dos prisioneiros dos campos de concentração de Auschwitz e Dachau, das deformidades provocadas em crianças pela poluição na baía de Minamata, das torturas impostas a prisioneiros iraquianos por soldados dos EUA em Abu Ghraib, dos efeitos de bombas de napalm sobre civis sul-vietnamitas, como a garota Kim Phuc, na foto acima, feita por Nick Ut, em 1972.

Não é agradável ver essas cenas. Mas às vezes é indispensável.

Quanto à cobertura em palavras do que vem ocorrendo em Gaza, a Folha começou muito mal. No sábado, enquanto os primeiros ataques aéreos ocorriam e prenunciavam o que viria, o jornal circulava com a avaliação de que a expectativa era a de que as tensões arrefecessem depois de Israel ter permitido a chegada de medicamentos e alimentos a Gaza.

Foi o contrário que ocorreu. Nunca é bom para um jornal antecipar algo e ocorrer o oposto. Mas faz parte dos riscos desta atividade.

O importante é que a Folha entendeu logo a importância dos fatos e melhorou muito ao longo da semana no seu acompanhamento. Na segunda, já estava na fronteira de Israel com Gaza seu enviado especial, que tem oferecido ao leitor o que só um jornalista do próprio veículo consegue fazer: mostrar os acontecimentos da perspectiva de real interesse do público específico.

A preocupação com o equilíbrio tem sido ostensiva. Sempre saem artigos em defesa dos dois lados em espaço comparável, descrevem-se as condições de vida dos habitantes das duas áreas (apesar da proibição à entrada de jornalistas estrangeiros em Gaza), o texto de Adrian Hamilton, do “Independent”, na sexta, sobre as causas do conflito, é exemplarmente isento.

Ainda falta muito a fazer, inclusive analisar com mais profundidade as posições do governo brasileiro e suas pretensões. Não será possível agradar a todos os leitores. Mas o caminho que o jornal vem seguindo é o certo.

“Enviado Especial”, de Clóvis Rossi, editora Senac, 1999 (a partir de R$ 43,45) Seleção de reportagens feitas pelo colunista da Folha no exterior, com um capítulo sobre Israel e palestinos de 1991 e 1996

“Jornalismo e Desinformação”, de Leão Serva, editora Senac, 2001 (a partir de R$ 27,65) Reflexões sobre o papel da imprensa em situações de conflito internacional a partir da experiência do autor como correspondente de guerra na ex-Iugoslávia

Para ver

“Bem-vindo a Sarajevo”, de Michael Winterbottom, com Woody Harrelson, 1997 (a partir de US$ 13,49 em sites de venda americanos) Ambientado em 1992, filme mostra grupo de jornalistas que cobre a guerra na Bósnia e o envolvimento emocional de alguns deles com um dos lados

“Procedimento Operacional Padrão”, de Erroll Morris, 2008, em exibição pelo Brasil A partir de entrevistas com os torturadores, a reconstrução dos horrores praticados por soldados americanos na prisão de Abu Ghraib, no Iraque, que ficaram conhecidos a partir de divulgação de fotos pela imprensa


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