Máfia italiana ingressa no Facebook

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The New York Times

Rachel Donadio
Em Roma

Sua colega de quarto da faculdade está no Facebook. Assim como seus primos, colegas e amigos. Mas adivinhe quem mais considera o Facebook uma grande forma de manter contato?

Algumas pessoas na Sicília que sabem alguma coisa sobre redes sociais.

Nas últimas semanas, as autoridades italianas começaram a investigar os grupos de discussão do Facebook dedicados aos mafiosos condenados, preocupadas com o fato de alguns membros poderem ser mais do que fãs.

Ao mesmo tempo, uma campanha pedindo para que o Facebook remova as páginas pró-Máfia começou a ganhar força, com milhares de membros do site se juntando aos novos grupos anti-Máfia.

O debate transbordou da sociedade civil para a sociedade online após reportagens recentes revelaram que mais de 2 mil pessoas se juntaram a grupos de interesse do Facebook saudando Salvatore Riina, o chefão dos chefões conhecido como Totó, que foi preso em 1993 após mais de duas décadas foragido; e seu sucessor, Bernardo Provenzano, preso em 2006 após quatro décadas escondido. Ambos estão cumprindo múltiplas sentenças de prisão perpétua.

Esses grupos “são como sites que enaltecem Hitler ou o nazismo“, disse Rita Borsellino, cujo irmão, o juiz Paolo Borsellino, passou sua vida investigando a Cosa Nostra antes de ser morto em 1992 por um carro-bomba que Riina foi posteriormente condenado de ordenar.

Borsellino disse que o Facebook foi “prejudicado” pelos sites glorificando a Máfia. “Estas são pessoas que são acusados de crimes sérios e estão na prisão”, ela acrescentou.

Os grupos gerados por membros do Facebook encorajam a troca livre de comentários sobre um tema. Após receber atenção da imprensa, alguns grupos desapareceram, incluindo “Totó Riina, o Verdadeiro Chefão dos Chefões”, cujos membros desejavam a Riina um feliz Natal e expressavam sua disponibilidade para trabalhar para ele. Outro grupo pedia pela “beatificação imediata” de Provenzano.

O Facebook disse que removeu alguns conteúdos relacionados à Máfia porque violavam os termos de uso do site.

Segundo essas regras, os membros concordam em não usar o Facebook “de qualquer forma ilegal” ou disponibilizar conteúdo considerado “prejudicial, ameaçador, ilegal, difamatório, infrator, abusivo, incitador de violência, perseguidor, vulgar, obsceno, fraudulento, violador de direitos públicos ou privados, que promovam ódio ou que sejam racial, étnica ou de outra forma censuráveis”.

Outros grupos estão fechados para filiação geral, incluindo “Fãs de Totó Riina, um Homem Incompreendido”, que se declara “contra os falsos moralistas”.

Pelo que se sabe, nenhum mafioso condenado possui sua própria página no Facebook, apesar de ser tentador imaginar as atualizações: “Totó Rinna está tentando comprar um juiz”. “Bernardo Provenzano deseja não ter que cumprir tantas penas de prisão perpétua.”

Atendendo aos magistrados anti-Máfia em Palermo, as autoridades italianas contataram o Facebook – que confirmou estar trabalhando com as autoridades italianas que abriram uma investigação.

“Nós estamos levando o assunto a sério mas sem deixar que saia de proporção”, disse Maurizio De Lucia, um magistrado do gabinete do promotoria anti-Máfia de Palermo.

De Lucia disse que os promotores estavam tentando determinar se os membros dos grupos online pró-Mafia eram, em grande parte, “alguns garotos querendo se divertir” ou gângsteres à procura de novas formas de trocar mensagens codificadas.

Até o momento, as autoridades disseram que não encontraram evidência de qualquer atividade criminosa nos sites.

Na semana passada, um membro da comissão anti-Máfia do Parlamento, o senador Gianpiero D’Alia, pediu por uma investigação do governo e para seus colegas removerem suas páginas do Facebook até o site remover os grupos pró-Máfia.

“Nós não podemos aceitar na realidade virtual o que não aceitamos na realidade real”, disse D’Alia em uma entrevista por telefone.

O movimento foi altamente simbólico. Segundo todos os relatos, o longo braço da lei italiana não chega tão longe, até os servidores do Facebook em Palo Alto, Califórnia, e elogiar a Máfia está protegido pela liberdade de expressão em ambos os países.

Um porta-voz do Facebook, que se recusou a ser identificado para um artigo sobre a Máfia, disse que a empresa “pode ser obrigada a revelar informação do usuário por meio de pedidos legais, como intimações ou ordens do tribunal, ou no cumprimento das leis aplicáveis”, mas acrescentou que a empresa não revela informação “até termos uma crença de boa fé que um pedido de informação pelas autoridades ou litigantes privados atenda aos padrões legais aplicáveis”.

As autoridades italianas disseram que uma de suas maiores preocupações -além da rede social poder facilitar o crime – é o de que a Máfia possa usar sites como o Facebook para formar um consenso tácito entre cidadãos fora isso cumpridores da lei e dos quais depende para funcionar.

“Isso é mais preocupante”, disse o coronel Iacopo Mannucci dos carabinieri de Palermo, que no mês passado prenderam quase 100 pessoas acusadas de tentar reconstituir o conselho de liderança da Máfia pela primeira vez desde a prisão de Riina, em 1993.

Muitos dizem que o Facebook, que conta com 150 milhões de membros em todo o mundo, é um instrumento saudável para promover o debate. De fato, outros estão usando o Facebook para mobilizar a resistência contra a Máfia. Um grupo italiano chamado “Máfia Fora do Facebook” tem 166 mil membros e promoveu um boicote de um dia contra o Facebook na quarta-feira, quando membros não ingressaram no site em protesto pela presença dos grupos pró-Máfia.

Outro grupo, cuja tradução educada seria algo como “Sim para Peitos, Não para Totó Riina”, questiona o motivo para recentemente o Facebook ter considerado ofensivas as fotos de mães amamentando no peito, mas permitir páginas enaltecendo os mafiosos.

Mais de 23 mil pessoas se juntaram ao “Em Honra de Giovanni Falcone, Paolo Borsellino e Sua Escolta Policial” que celebra Borsellino e Falcone, outro importante juiz anti-Máfia que foi morto pelos mafiosos em um ataque com bomba em 1992.

Em outro site, um membro citou Falcone: “Homens morrem, mas suas idéias permanecem. Suas lutas morais permanecem, e elas continuam caminhando com as pernas de outros homens.”

E nas páginas do Facebook.


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