A tecnologia não nos deixa burros. Ela liberta nossas mentes

   

22/09/2008

Por Damon Darlin

Todo mundo está comentando um artigo da revista “The Atlantic” intitulado “Será que o Google está nos deixando burros?”. Parte desse grupo de fato leu o artigo de 4.175 palavras, escrito por Nicholas Carr.

Para poupar seu tempo, eu pensei em fazer uma versão resumida do artigo em 100 palavras. Mas há distrações demais para ler tudo aquilo. Então eis aqui a versão de 140 caracteres feita para o Twitter (Twitter é uma forma de blog de alta velocidade no qual você escreve sobre sua vida em rajadas de 140 caracteres ou menos, incluindo espaços e marcas de pontuação):

O Google torna a leitura profunda impossível. A mídia muda. Nosso cérebro também. Computadores pensam por nós, reduzindo nossa inteligência.

Se você conseguiu ler todo o parágrafo, talvez esteja pensando que o Twitter, e não o Google, seja o maior inimigo do progresso intelectual humano.

No Twitter, as pessoas se inscrevem para receber suas mensagens, ou “tweets”. Aqueles que conseguem tornar interessantes os detalhes mundanos da vida reúnem uma grande audiência. Vários serviços foram criados para competir com o Twitter. Outros surgiram para ajudar as pessoas a gerenciarem o enorme fluxo de informação enviado pelos usuários do Twitter.

Há até mesmo uma versão, o Yammer, feita para uso corporativo. Você pode acompanhar as torrentes de mensagens de certos funcionários.
(“Estou na reunião semanal. O lanche é bom. Por que todo mundo está usando bege? Todos devem mandar seus relatórios no prazo, ok?”) Como se não houvesse o suficiente para nos distrair no ambiente de trabalho além das reuniões, telefonemas, mensagens instantâneas, e-mails e pesquisas no Google.

Se as pessoas já se questionam sobre o benefício do Google, que nos livrou grandemente da perda de tempo associada à procura de informações, existe uma hostilidade ainda maior em relação a uma ferramenta que condensa nossas vidas em haikais. O co-fundador do Twitter, Jack Dorsey, entrevistado pela revista Technology Review do MIT – através de mensagens de Twitter, é claro – foi questionado por que as pessoas que não conhecem o serviço e ficam sabendo da sua existência mostram-se “incompreensivas ou irritadas”.

Sua resposta foi breve e insatisfatória: “As pessoas têm de descobrir o valor dele para si mesmas. Especialmente c/ algo tão simples & sutil como o Twitter. Ele é o que você faz dele.”

É difícil pensar em uma tecnologia que não foi temida quando foi introduzida. No artigo da revista Atlantic, Carr diz que Sócrates temeu o impacto que a escrita teria sobre a capacidade de pensar do homem. O advento da imprensa gerou medos similares. E esta não seria a última vez.

Quando a Hewlett-Packard inventou a HP-35, a primeira calculadora científica de bolso, em 1972, ela foi banida de algumas aulas de engenharia.

Os professores temiam que os engenheiros a usassem como uma muleta, que eles não mais compreendessem os benefícios que os cálculos a lápis ou a régua de cálculo de certa forma ofereciam para o pensamento científico competente.

Mas a HP-35 dificilmente ridicularizou as habilidades da engenharia.
Em vez disso, nos últimos 36 anos, os mesmos engenheiros nos trouxeram iPods, telefones celulares, TVs de alta definição e, também, o Google e o Twitter. Ela livrou os engenheiros da perda de tempo em tarefas mundanas para que eles pudessem gastar mais tempo criando.

Muitos avanços tecnológicos têm esse efeito. Veja o programa de imposto de renda, por exemplo. A tediosa tarefa de preencher uma declaração não requer mais várias noites, mas apenas algumas horas. Ela nos dá tempo para atividades mais produtivas.

Mas para todas as novas tecnologias que aumentam nossa produtividade, há outras que nos consomem mais tempo. Esta é uma das dialéticas de nossa era. Com seus mapas e acesso a internet, o iPhone nos poupa tempo; mas com seus jogos para baixar, também carregamos um passatempo em nosso bolso. A proporção de tecnologias de desperdício e economia de tempo deve apenas crescer. Numa sociedade baseada na informação e na qual a informação é livre, a atenção torna-se o bem mais valioso.

As companhias competem pelos nossos globos oculares, que foram a grande métrica durante a explosão da Internet, e brigam para criar uma mídia que seja atrativa, outro grande termo para essa época. Nós não somos pagos por nossos intervalos de atenção, mas recompensados por isso com mais distrações e demandas sobre o nosso tempo.

A crença pessimista de que as novas tecnologias irão de certa forma tornar nossas vidas piores pode ser uma questão de formação ou treinamento. O futurista Paul Saffo, diz que pode dividir o mundo da tecnologia em dois tipos de pessoas: os engenheiros e os cientistas naturais. Ele diz que o olhar do engenheiro para o mundo é por natureza otimista. Todos os problemas podem ser resolvidos desde que se tenha as ferramentas certas, tempo suficiente e as perguntas corretas.

Outras pessoas, que podem ser tão científicas quanto aquelas, vêem a ordem natural do mundo em termos de entropia, declínio e morte.

Essas pessoas não estão necessariamente erradas. Mas o ponto de vista do engenheiro deposita mais fé no melhoramento humano. Certamente houve momentos em que esse pensamento se tornou terrivelmente desvirtuado – como na música atonal ou na gastronomia molecular. Mas ao longo do curso da história humana, escrever, pintar, computar e “googlear” apenas tornaram mais fácil pensar e se comunicar.

Tradução: Eloise De Vylder


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