O que um jornalista não deve fazer quando for ser correspondente na China

Carroll Bogert

Está cada vez mais claro que o governo chinês não honrará as promessas feitas ao Comitê Olímpico Internacional de respeitar a liberdade de imprensa, nem mesmo em relação aos jornalistas estrangeiros que já estão chegando aos milhares em Pequim. Isso deixou muitos deles coçando a cabeça e se perguntando como cobrirão as Olimpíadas da China. Mas eles poderiam muito bem estar perguntando como não cobrirão os Jogos.

Quando estava na universidade, eu era uma admiradora ardente de um famoso correspondente internacional. Ele inaugurou o escritório do seu jornal em Pequim e escreveu energicamente a respeito da China que acabava de sair da Revolução Cultural e ousava seguir as diretrizes de Deng Xiaoping para a adoção de uma economia mais livre. Ele não se esquivou das histórias sombrias da repressão política da China, tanto as passadas quanto as presentes. Muitas dessas histórias foram narradas no seu best-seller a respeito daqueles anos iniciais, quando os correspondentes internacionais estavam estabelecendo as suas bases de operações na China pela primeira vez desde a tomada do poder pelos comunistas.

Quando eu cheguei na China para trabalhar como estagiária do “The Washington Post” em 1985, descobri que o problema era que algumas das pessoas entrevistadas por aquele jornalistas veterano foram perseguidas por terem falado com um repórter estrangeiro. Uma delas chegou a ir para a cadeia. E isso fez com que o nome do meu herói jornalista ficasse enodoado junto à comunidade de correspondentes internacionais de Pequim.

Um repórter de uma agência de notícias que eu conheci após o massacre da Praça da Paz Celestial cometeu um erro similar. Ele é um jornalista notável, que mais tarde foi trabalhar em um grande jornal internacional.

Mas logo após o esmagamento da democracia, em 1989, ele citou os comentários altamente críticos feitos por um amigo chinês contra o governo. O chinês era um acadêmico jovem, educado no Ocidente, que havia conversado com vários correspondentes. Ainda bem que ele conseguiu sair do país sem ter sido preso, mas o incidente poderia muito bem ter terminado de uma forma menos feliz.

Tão importante quanto aquilo que se escreve na China é aquilo que não se
escreve: as fontes que não são citadas (mesmo que elas digam que “não tem problema”); as fotos que não são tiradas; as casas e locais de trabalho nos quais não se entra. Especialmente se o jornalista não ficar muito tempo na China, ou se não falar a língua (desculpas que não poderiam ser usadas por nenhum dos dois correspondentes), a máquina repressiva do governo pode ser invisível para ele. O jornalista pode não perceber a verdadeira função do agente do Departamento de Segurança Pública que o acompanha. E o correspondente já terá deixado a cidade há muito tempo quando o agente voltar para fazer uma visita àquele fascinante empresário da Internet com o qual o repórter tomou chá durante umas duas horas em Wuhan. Pode ser que o jornalista nunca saiba que, após a entrevista, a sua fonte teve que pagar uma propina enorme para manter seu negócio funcionando ou para que o seu filho pudesse continuar freqüentando a universidade. A mulher dele não ligará para o repórter quando o entrevistado for arrastado para a delegacia de polícia para passar por um “questionamento”. Essas fontes aprenderão a lição – não falar com repórteres -, mas o jornalista não estará lá para aprender a dele.

Assim sendo, como proteger as suas fontes na China? Como foca que cobriu o massacre da Praça da Paz Celestial para a revista “Newsweek”, eu fiz a coisa da forma errada e fui repreendida pelo meu editor. O colunista de mídia da revista estava escrevendo exatamente sobre essa questão, como proteger as fontes após a onda de repressão, e me entrevistou para a sua matéria. Eu disse a ele tranqüilamente a verdade, ou seja, que mudei uma letra do sobrenome da minha fonte. Afinal, os leitores da “Newsweek” não iriam se importar se Wang Zhen virasse Wang Zhan.

Se eles se importaram ou não, eu não sei, mas o meu editor se importou, e com razão. Se você vai modificar um nome para proteger uma fonte, é necessário que informar isso na matéria. Mas não deixe que esse fato o intimide. Apesar do furor recente em torno do uso de fontes anônimas, eu não acredito que os leitores repudiem essa prática. Na verdade, isso faz parte da informação importante que você tem a responsabilidade de passar para eles: falar com repórteres ocidentais ainda é algo perigoso para o povo chinês, e nós ainda temos a responsabilidade de proteger essas pessoas.

*Carrol Bogert é diretora associada da Human Rights Watch e ex-correspondente internacional da revista “Newsweek”


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