Arquivo do mês: fevereiro 2012

Pública abre concurso “Microbolsas para Reportagem Investigativa”

A Pública, agência de jornalismo investigativo independente, anunciou em seu site, na última segunda-feira (27/2), o início do concurso de “Microbolsas para Reportagem Investigativa”, para incentivar a produção de reportagens independentes no Brasil. As inscrições podem ser feitas até o dia 23 de março.

O concurso é destinado a jornalistas freelancers e independentes com o objetivo de produzir matérias que contribuam para transparência pública, justiça social e defesa dos direitos humanos.

As inscrições devem ser realizadas através do e-mail contato.publica@gmail.com, com o título “Microbolsas”. O projeto deve conter uma pequena biografia do candidato, proposta de pauta inédita detalhada, plano de trabalho, duas referências de trabalho e plano de orçamento. As propostas serão analisadas pela Comissão julgadora composta por coordenadores e conselheiros da agência

Os ganhadores receberão prêmio no valor de R$ 4.000 para a realização da reportagem em texto ou vídeo e terão seus trabalhos divulgados na Pública.

Com informações do Midiamax.


Marco regulatório da mídia vai à consulta pública

O debate sobre as políticas de comunicação no Brasil foi reaquecido após manifestação do ministro Paulo Bernardo em um seminário realizado em Brasília no dia 14 de fevereiro. O ministro voltou a anunciar que em breve o marco regulatório vai à consulta pública. Questionado pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), o governo estuda enquadrar os sites noticiosos estrangeiros atuantes no país. Para a FENAJ, a regulamentação é necessária para atender aos interesses gerais da sociedade, não para satisfazer a uma parte do setor preocupada com a concorrência.

Segundo diversos veículos, durante o seminário sobre políticas de telecomunicações o ministro Paulo Bernardo anunciou que o marco regulatório “voltado para emissoras de rádio e TV” entrará em consulta pública nos próximos dias. A proposição aprovada na I Conferência Nacional de Comunicação, realizada em 2009, no entanto, era mais abrangente. Reivindicava a regulamentação dos preceitos constitucionais sobre comunicação e a formulação, com participação da sociedade, de uma política geral para o setor, não apenas para a área de radiodifusão.

Para Celso Schröder, presidente da FENAJ, a leitura que veículo A, B, ou C faz é menos importante. O fundamental é que o governo apresente a sua proposta. “E nós esperamos que ela respeite e incorpore as concepções aprovadas no processo mais democrático de debate do setor que já se realizou no Brasil, que foi a Confecom”, considera.

Schröder registra que em qualquer sociedade democrática existem regras a serem seguidas em todos os setores. E defende que na comunicação não pode ser diferente, “do contrário estaremos submetidos à barbárie e aos interesses privado-comerciais de algumas empresas que, sob o manto da defesa das liberdades de expressão e de imprensa, monopolizam e manipulam o setor”.

Quanto ao questionamento da Abert sobre a regulamentação de sites noticiosos após o anúncio de que o jornal eletrônico Huffington Post planeja lançar uma versão brasileira, o presidente da FENAJ é taxativo. “A questão é complexa e carece de regulamentação, mas que não seja pontual, para o governo atender os interesses das empresas preocupadas com a concorrência estrangeira”. Ele defende que o tema seja tratado com o enfoque do novo marco regulatório das comunicações, atendendo aos interesses gerais da sociedade. (FENAJ)


SP vai apurar reutilização de seringas em hospitais

Blitz flagra empresa que reutiliza material hospitalar

Santa Casa de S. Carlos e o Hospital São Lucas, de Ribeirão, podem ser clientes

Empresa esterilizava itens descartáveis e tinha contrato com cerca de 300 instituições de saúde

GABRIELA YAMADA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE RIBEIRÃO PRETO

A Secretaria de Estado da Saúde fará uma força-tarefa para vistoriar cerca de 300 instituições de saúde -entre hospitais públicos e privados- que mantinham contrato com a Sterimed Serviços de Esterilização, de Cedral (424 km de São Paulo).

Blitz da secretaria multou e suspendeu as atividades da empresa após o Estado flagrar que no local eram reprocessados e esterilizados materiais hospitalares que só podem ser usados uma vez.

Entre eles, foram encontrados cinco seringas injetoras, 67 conectores de injeção e dois cateteres vasculares.

Os hospitais e unidades de saúde são do interior paulista, de Minas, Tocantins e Goiás. A secretaria deu um prazo de 48 horas para que a empresa forneça os 300 nomes.

Entre as instituições, há unidades da região -como a Santa Casa de São Carlos e o Hospital São Lucas, de Ribeirão Preto- e o Hospital de Base de São José do Rio Preto.

‘DESRESPEITO’

Para Isac Jorge Filho, conselheiro responsável pelo Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) em Ribeirão, o ato é criminoso e expõe pacientes a riscos de contrair doenças graves e fatais. “É a institucionalização do desrespeito à população”, afirmou.

Segundo ele, o caso é ainda pior do que o episódio do ano passado em que lençóis e outros produtos hospitalares foram comercializados no país.

O reprocessamento indevido foi constatado na semana passada, após operação de fiscais da secretaria, com apoio da Polícia Civil e do setor de saúde da Corregedoria Geral de Administração, na Sterimed, região de Rio Preto.

Segundo a diretora do Centro de Vigilância Sanitária, Maria Cristina Megid, o reprocessamento era feito por funcionários à noite -o que foi constado na blitz-, nos últimos dias 15 e 16, após denúncia anônima. “Encontramos materiais que já estavam embalados e prontos para serem encaminhados aos hospitais.”

Entre os materiais reprocessados havia, também, um alicate para cirurgias ortopédicas com sujeira. Também foram encontrados produtos usados com prazo de validade vencido em 2007.

Uma tabela de preços entregue à secretaria aponta que a esterilização de seringas, por exemplo, custa R$ 5,75 a unidade.

Ontem, a Sterimed apresentou sua defesa à secretaria, que foi indeferida por falta de justificativas. A multa foi de R$ 184 mil. As instituições a serem vistoriadas poderão ser autuadas. (Folha de São Paulo)


Por que não criar um CNJ para a imprensa?

* Ricardo Kotscho
Foram praticamente unânimes os aplausos na imprensa para a corregedora Eliana Calmon pela vitória que conquistou esta semana no STF em sua batalha contra o corporativismo e a impunidade dos magistrados. Tanto nos comentários dos leitores deste Balaio como em outros sítios, os brasileiros comemoram a coragem desta mulher que resolveu abrir a caixa preta da Justiça.

Em comentário enviado às 6h59 deste domingo ao blog do meu colega Ricardo Noblat, no portal Globo.com, que reproduziu no sábado meu post de sexta-feira sobre o julgamento do CNJ no STF (“6 a 5: a sofrida vitória de Eliana Calmon”), o leitor Julio Cezar Noia Mattos levantou uma interessante questão, na qual também já vinha pensando:

“Poderiam aproveitar o clima para criar um órgão de controle externo para a imprensa, derrubando mais uma caixa preta, pois é mais que um direito dos cidadãos receber as informações sem manipulações e partidarismos”.

Por uma feliz coincidência, poderiam aproveitar até a mesma sigla do CNJ da Justiça criando o Conselho Nacional de Jornalismo. Foi mais ou menos essa a reivindicação que os presidentes da Federação Nacional dos Jornalistas e de 26 sindicatos estaduais levaram ao então presidente Lula, em 2004, quando eu era o Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República.

Na época, os mesmos órgãos da grande mídia, que agora defendem o controle externo do Judiciário, uniram-se contra a proposta dos jornalistas, acusando o governo de querer censurar a imprensa.

Sugestão endossada
Enviado ao Congresso Nacional em forma de projeto de lei, a proposta de criação do Conselho Federal de Jornalistas acabou sendo retirada pelo próprio governo pouco tempo depois, após um verdadeiro massacre promovido por colunistas e editorialistas dos jornalões, que não admitem qualquer regulamentação da atividade, hoje transformada numa terra de ninguém.

A formação deste CNJ da imprensa poderia ser feita nos mesmos moldes e com os mesmos objetivos do CNJ, encarregado de fiscalizar o Judiciário, ou do Conar, o órgão de autorregulamentação da publicidade, criado há mais de 30 anos e integrado por representantes de veículos, agências e anunciantes.

Por que não? As entidades patronais, hoje reunidas no Instituto Millenium, sequer admitiram discutir o projeto ou qualquer outro que proteja a sociedade dos abusos cometidos por veículos e jornalistas. No ano passado, o projeto de lei apresentado em 2004, com algumas modificações, voltou a ser debatido no Congresso Nacional e esta é uma boa oportunidade para estendermos ao chamado quarto poder os mesmos instrumentos de regulação e fiscalização que defendemos para o Executivo, o Legislativo e o Judiciário.

Trata-se de um assunto que interessa a toda a sociedade e não apenas aos diretamente envolvidos na atividade jornalística. Fica a sugestão do leitor Julio Cezar Noia Mattos, que eu endosso.

Precisamos urgentemente de uma Eliana Calmon também para a imprensa.

* Comentarista do Jornal da Record News e repórter especial da revista Brasileiros.

Publicado no blog do autor em 5/02/12


Jornalismo de guerra

Pode não parecer, mas o Código Brasileiro de Trânsito determina que os pedestres têm preferência, já que são o elo mais fraco do sistema -em comparação a carros, motos, caminhões. A imprensa deveria seguir lógica parecida: quando há um megaespeculador de um lado e 6.000 sem-teto de outro, a prioridade de entrevista seria dos últimos, que não têm tanto poder para se fazer ouvir.

Mas não é o que está havendo na cobertura televisiva da desocupação do Pinheirinho, uma área em São José dos Campos habitada há oito anos por 1.600 famílias. O terreno pertence à massa falida do grupo Selecta, do empresário Naji Nahas. É avaliado em R$ 180 milhões e foi objeto de desavenças em diferentes esferas do Judiciário, até que, há cerca de duas semanas, a Justiça estadual decretou a reintegração de posse.

No dia 22, o “Fantástico” dedicou pouco mais de dois minutos à cobertura. Abriu a reportagem com cenas dos policiais escancarando um portão e adentrando o terreno. Voz em off: “Seis e meia da manhã, a tropa de choque invade o Pinheirinho”. Deu para imaginar os policiais combinando com a equipe da Globo: um-dois- três-e-já.

A ação contou com um efetivo de 2.000 homens, dois helicópteros, 220 carros, 40 cães e cem cavalos. “A situação ficou fora de controle”, explicou a locutora, e a cena era de um sujeito jogando pedra contra policiais.

“Os moradores atearam fogo em prédios públicos e em oito carros, entre eles o da TV Vanguarda, afiliada da Rede Globo.”

Aparece a repórter, com um colete a prova de balas: “Segundo policiais que entraram aqui nesta área, esses barracos todos estão abandonados porque eles serviam para o tráfico de drogas. Aqui era uma espécie de cracolândia, onde se vendia e consumia droga”.

Outra coisa que ficamos sabendo pelo “show da vida”: em protesto, os sem-teto bloquearam por meia hora uma das pistas da via Dutra. Um homem foi atingido por um tiro de arma de fogo durante a operação, mas a polícia diz que só utilizou balas de borracha. Final da reportagem.

Nada foi dito sobre a presença de tanques de guerra e de soldados da cavalaria com suas espadas. Nada foi dito sobre o uso de força contra idosos e crianças e nem sobre o destino dos desalojados. Alguns receberam da Prefeitura de São José dos Campos passagens rodoviárias para seus “Estados de origem”.

Só que muitos são paulistas.

Originalmente publicado na Folha de SP, Ilustrada, 06 Fev. 2012


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